REPORTAGEM: Cresce o interesse pelo mandarim entre jovens cabo-verdianos em busca de oportunidades académicas e profissionais

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REPORTAGEM: Cresce o interesse pelo mandarim entre jovens cabo-verdianos em busca de oportunidades académicas e profissionais
15/08/26 - 01:30 am

***Por Cintia Garcia, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 15 Ago (Inforpress) - O mandarim, considerado ainda um “tabu” por muitos cabo-verdianos, começa a ganhar espaço entre jovens que vêem na língua chinesa uma porta para oportunidades académicas, profissionais e para o reforço da cooperação entre Cabo Verde e a China.

Apesar dos avanços, a língua chinesa ainda é vista por muitos estudantes como “difícil e distante”, enquanto responsáveis pelo seu ensino defendem uma maior valorização do mandarim no sistema educativo cabo-verdiano.

Durante muito tempo, aprender mandarim em Cabo Verde esteve longe das prioridades dos estudantes. Hoje, porém, a língua chinesa começa a ganhar espaço nas escolas e universidades, acompanhando o aumento das oportunidades de formação e de cooperação entre os dois países.

Para a directora nacional do Instituto Confúcio, Ermelinda Tavares, o ensino do mandarim representa uma “valência importante” para os jovens que pretendem continuar os estudos na China, sobretudo tendo em conta o número crescente de cabo-verdianos que concorrem a bolsas de estudo naquele país.

Segundo aquela responsável, muitos estudantes viajavam anteriormente para a China sem qualquer conhecimento da língua. Actualmente, a realidade começa a ser diferente, com alunos que chegam ao país asiático já com conhecimentos básicos de mandarim, através do Instituto Confúcio, o que facilita a comunicação e a adaptação.

“Os alunos procuram este instituto para se prepararem para continuar os seus estudos. Tendo já o conhecimento básico do mandarim, chegando ali facilita muito a comunicação”, explicou.

Apesar dos avanços, Ermelinda Tavares reconhece que o mandarim ainda é considerado por muitos cabo-verdianos como “uma língua sem grandes utilidades práticas”.

A directora considera que este “tabu” constitui um dos principais obstáculos ao crescimento do número de estudantes. Uma das dificuldades está relacionada com o facto de, no ensino secundário, o mandarim ser uma disciplina opcional.

Na sua perspectiva, enquanto a língua permanecer opcional, muitos alunos não terão o mesmo nível de compromisso que teriam caso fosse obrigatória.

“Se um dia o ministério conseguir manter o mandarim como língua obrigatória, iremos ter mais alunos e os alunos vão se dedicar a sério”, defendeu.

Actualmente, o mandarim é introduzido no ensino secundário, nomeadamente na área humanística, mas a escolha cabe aos estudantes. Para aquela responsável, uma maior presença da língua no sistema educativo poderia contribuir para aumentar o número de jovens interessados.

A história da cabo-verdiana Nara Vaz, que actualmente é professora de mandarim, é um exemplo de como uma oportunidade pode transformar-se numa profissão.

O primeiro contacto com a língua aconteceu no contexto de uma oportunidade de estudo na China. No início, conta que “foi difícil”, sobretudo porque não tinha conhecimentos suficientes de inglês, língua que muitas vezes servia de apoio durante a aprendizagem.

“Foi super desafiante, mas eu nunca desisti”, recordou.

Com dedicação, Nara conseguiu ultrapassar as dificuldades e hoje ensina mandarim. Para ela, uma das maiores barreiras continua a ser a percepção de que a língua é demasiado difícil.

A professora defende que é necessário levar o ensino para além da sala de aula, através de actividades culturais, colónias de férias e outras iniciativas que permitam aos interessados ter contacto com a língua de forma mais descontraída.

“Se todas as pessoas tiverem a oportunidade de aprender, começam a ter interesse na China, tiram o medo”, afirmou.

Para Edson Semedo, professor de mandarim na Escola Secundária Manuel Lopes, na Calabaceira, o principal desafio está em compreender que o mandarim não deve ser encarado como uma língua impossível de aprender.

“Mandarim não é uma língua difícil, mas sim diferente”, considerou.

Edson começou a estudar a língua em 2018, motivado inicialmente pelo desejo de estudar medicina na China. Com o passar do tempo, a curiosidade transformou-se em paixão.

Participou em concursos promovidos pelo Instituto Confúcio e viajou pela primeira vez para a China em 2023, onde aprofundou os estudos da língua.

Hoje, além de falar mandarim, transmite os seus conhecimentos aos estudantes. Na sua opinião, dominar a língua chinesa representa uma vantagem num mercado de trabalho cada vez mais globalizado.

“Quando falas chinês estás a abrir portas para falar com muita gente” e também para novas oportunidades profissionais, afirmou.

A experiência de Melodina Tavares também demonstra como o mandarim pode transformar-se numa ferramenta profissional.

A oportunidade surgiu em 2018, quando teve conhecimento de uma vaga para Macau. Entre as opções disponíveis estavam Administração Pública e Mandarim. Optou pela segunda.

O início, admite, não foi fácil. Os tons e a pronúncia chinesa exigiram esforço adicional, já que uma mesma palavra pode adquirir significados diferentes dependendo do tom utilizado.

Depois de concluir a licenciatura em Macau, prosseguiu os estudos e realizou um mestrado em Pequim, concluído em 2025.

Actualmente trabalha como secretária no Instituto Confúcio e afirma utilizar o mandarim em grande parte das suas actividades profissionais.

Para Melodina, a língua chinesa pode representar uma vantagem para os cabo-verdianos no mercado de trabalho e contribuir para enriquecer os seus currículos.

A professora chinesa Chen Yu Fei, que vive em Cabo Verde há quase quatro anos, acompanha de perto esta evolução.

Segundo a docente, o interesse pelo mandarim aumentou de forma clara. Se inicialmente muitos estudantes procuravam a língua apenas por curiosidade, hoje há jovens que a encaram como uma competência capaz de abrir portas para estudos, emprego e contacto com a cultura chinesa.

Chen Yu Fei considera que os principais desafios são os caracteres, os tons e a estrutura da língua, mas também uma “distância psicológica” construída ao longo dos anos pela ideia de que a China está demasiado longe e que aprender mandarim não teria utilidade prática.

Essa perceção, segundo a professora, está a mudar à medida que aumentam os contactos entre os dois países.

Para Chen Yu Fei, ensinar mandarim é muito mais do que ensinar uma língua.

“A língua é o meio de comunicação, mas também a base da compreensão entre os povos”, defendeu.

A professora acredita que o aumento do número de cabo-verdianos que dominam o mandarim poderá facilitar a integração dos cidadãos chineses que vivem e trabalham em Cabo Verde e, simultaneamente, fortalecer a cooperação bilateral nas áreas da educação, comércio, saúde, turismo e outras.

O mandarim é visto por professores e estudantes como uma língua que pode abrir novas oportunidades académicas, profissionais e culturais para os cabo-verdianos. As experiências de jovens que estudaram na China demonstram o potencial da língua, mas o desafio continua a ser atrair mais estudantes e garantir uma aprendizagem contínua.

CG/ZS

Inforpress/Fim

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