REPORTAGEM/ Tragédia do Metanol em Rincão: O dia em que a morte chegou do mar (c/vídeo)

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REPORTAGEM/ Tragédia do Metanol em Rincão: O dia em que a morte chegou do mar (c/vídeo)
19/09/26 - 05:00 am

*** Por Luís Carvalho, da Agência Inforpress ***

Assomada, Santa Catarina, 19 Set (Inforpress) – Quarenta anos depois, a aldeia piscatória de Rincão, em Santa Catarina de Santiago, mantém viva a memória da tragédia provocada pela ingestão de metanol, que matou oito pessoas, incluindo crianças, numa das páginas mais dolorosas da sua história.

A equipa de reportagem da Inforpress esteve na pequena aldeia piscatória ouvindo as angústias dos sobreviventes e dos familiares das vítimas.

Tudo começou quando um bidão apareceu à costa, encontrado por três pescadores que, sem saberem o seu conteúdo, decidiram rebocá-lo para terra.

José António Semedo Tavares integrou o grupo de três pescadores que encontrou o bidão no mar e ajudou a rebocá-lo para a embarcação “Filomena”, bote que recebeu esse nome em homenagem à filha mais nova, Edna Fernandes, por iniciativa do pai, Pedro Jorge, conhecido por Dom Pedro.

O que parecia uma descoberta sem consequências transformou-se numa tragédia: na altura, muitos confundiram o líquido com “grogue” de Santo Antão e começaram a consumi-lo.

O antigo agente sanitário Raúl Lopes Correia foi dos primeiros a perceber o perigo e tentou impedir o consumo. “Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para evitar que as pessoas bebessem”, recorda, explicando que alertou os moradores, mas sem o resultado esperado.

O agente sanitário conta que estava na cama quando foi acordado por um dos pescadores a informar sobre o achado.

“Dirigi-me imediatamente ao local para verificar do que se tratava”, recorda Raulinho, como também é conhecido, acrescentando que recolheu um litro do referido líquido e levou-o à Assomada para ser analisado. Ao mesmo tempo, recomendou às pessoas que não bebessem, uma vez que não se sabia do que se tratava.

Infelizmente, sublinhou, as pessoas não seguiram os conselhos e, na sua ausência, começaram a ingerir o líquido.

Na altura, a Polícia em Assomada não dispunha de viaturas nem de agentes suficientes para se deslocar a Rincão, a fim de verificar o que estava a acontecer.

“Quando as pessoas começaram a morrer, as autoridades policiais e sanitárias começaram a preocupar-se, pois o assunto era sério”, afirmou Raulinho, acrescentando que a Polícia teve a iniciativa de parar os carros que passavam nas estradas e a enviá-los para Rincão para socorrer as vítimas.

De regresso à aldeia, de megafone na mão sobre a carroçaria de um camião Bedford, pediu às pessoas que falassem a verdade se tinham ou não consumido o referido produto.

“Todos diziam que não tinham ingerido. Quando lhes informei de que as três pessoas enviadas à Delegacia de Saúde de Assomada tinham morrido, então começaram a confessar: ‘Eu bebi uma coisinha’”. E assim foram apanhadas e colocadas no carro para serem transportadas para a Assomada.

As primeiras vítimas mortais foram levadas por mar até à Ribeira da Barca e, dali, de carro para Assomada. “Primeiro faleceu um senhor, depois uma criança e a seguir uma senhora”, lembra o antigo agente sanitário.

Margarida Dias, de 83 anos, fala do episódio como se tivesse acontecido hoje. Quatro décadas depois, a lembrança daquela tragédia continua presente nas suas palavras.

Conta que muitas pessoas, sobretudo crianças, escaparam à morte porque foram impedidas por ela de beber o líquido que circulava entre os moradores.

“Diziam-me que eu estava a ser má, porque não lhes deixava beber aquilo. Vi logo que não era grogue, pois tinha um cheiro estranho”, relata Margarida Dias, acrescentando que também tinha guardado uma quantidade razoável de metanol, uma vez que o marido, Dom Pedro, dono da embarcação que encontrou o bidão, teve direito a 50 litros.

Em conversa com o repórter da Inforpress, disse que, quando as pessoas que ingeriram o metanol começaram a morrer, todos os que tinham guardado o “grogue” para beber no dia seguinte começaram a deitá-lo fora.

A tragédia deixou várias crianças órfãs. Uma delas foi Felismino Borges, actualmente professor de Francês na Escola Secundária Napoleão Fernandes, em Cruz Grande, Assomada, Santa Catarina. Tinha apenas alguns meses de vida quando perdeu o pai na sequência da ingestão do metanol.

Não guarda memórias directas daquele dia, mas cresceu ouvindo a mãe falar do marido que morreu e dos difíceis anos que se seguiram, durante os quais teve de criar sozinha os cinco filhos.

“Cresci ouvindo a minha mãe contar essa história”, indica Felismino, lembrando o esforço da progenitora para manter a família unida e garantir o futuro dos filhos depois da morte do marido.

Ainda criança, para estudar, Felismino viu-se obrigado a ajudar a mãe na extracção de inertes no mar para vender. Entretanto, hoje sente-se orgulhoso por ter conseguido alcançar um dos seus objectivos: ser professor de Francês.

O pai, Gualdino Brito Borges, foi a primeira vítima mortal do metanol.

“A minha mãe conta que o meu pai estava a dormir quando os colegas chegaram com o tal bidão. Ao ouvir o barulho na rua, foi ter com as pessoas para se inteirar sobre o que se estava a passar. Foi então que lhe informaram que os pescadores tinham encontrado um bidão com grogue de Santo Antão e começaram a beber”, narra Felismino.

Gualdino Borges, segundo o filho, tinha acabado de se levantar da cama e, como ainda “não tinha tomado nenhuma pinga”, a ingestão do metanol foi fatal para ele.

Felismino Borges defende que o Estado de Cabo Verde devia indemnizar as famílias das vítimas.

“As cargas do barco encalhado [na zona de Baixo Galhão, na ilha do Maio] foram atiradas ao mar e não foram recolhidas, nem houve avisos às populações costeiras sobre o perigo”, critica Felismino Borges, responsabilizando o Estado pela tragédia.

A tragédia também poderia ter tido consequências diferentes para Carlos Alberto Gonçalves, hoje com 58 anos. Era ainda jovem quando ingeriu o produto.

Sobreviveu, mas ficou entre aqueles que viveram directamente uma situação que poderia ter terminado de forma fatal.

José António Semedo Tavares, 58 anos, diz também ter bebido mais de um litro do metanol. Foi um dos pescadores que rebocaram o bidão para a embarcação de boca aberta.

Quatro décadas depois, as histórias cruzam-se entre sobreviventes, familiares e testemunhas, numa memória colectiva que Rincão procura preservar.

Edna Fernandes, hoje pequena empresária na restauração, não viveu directamente o drama. Tinha pouco mais de um ano na altura dos acontecimentos, mas cresceu a conhecer a história através dos relatos dos pais e de outros moradores.

É precisamente para que essa memória não se perca que defende a criação de um museu dedicado às vítimas da tragédia do metanol em Rincão.

A ideia, explica, é criar um espaço capaz de preservar a memória das pessoas que perderam a vida, reunir testemunhos e objectos relacionados com o episódio a fim de permitir que as novas gerações conheçam uma das páginas mais marcantes da história da comunidade.

Para concretizar o projecto, Edna Fernandes apela ao apoio das autoridades, entendendo que a dimensão da tragédia justifica a criação de um espaço permanente de memória.

À semelhança de outros membros da comunidade, Edna defende também que o Estado devia indemnizar os familiares das vítimas, porque, diz, “houve negligência das autoridades de então”.

Em Agosto de 2024, o então primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva e a Câmara Municipal de Santa Catarina inauguraram um monumento em memória das vítimas da tragédia do metanol de 1986. A comunidade de Rincão congratula-se com o memorial, mas acha que deviam ser gravados nomes das oito vítimas mortais para serem recordadas.

O advogado Silvino Fernandes considera que o Estado tem responsabilidade civil no caso das vítimas da tragédia do metanol, embora reconheça que, juridicamente, os prazos legais para reclamação de indemnizações já terão expirado.

O jurista defende, contudo, que persiste um dever moral de indemnizar as famílias, fazer um levantamento dos danos e “fazer as pazes” com as vítimas, sobretudo viúvas e crianças que cresceram sem os pais.

LC/CP

Inforpress/Fim

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