REPORTAGEM/Santa Cruz: Ribeira Seca resiste entre o verde dos campos e dificuldades do quotidiano

Inicio | Ambiente
REPORTAGEM/Santa Cruz: Ribeira Seca resiste entre o verde dos campos e dificuldades do quotidiano
25/05/26 - 03:37 pm

Pedra Badejo, 25 Mai (Inforpress) – Em Ribeira Seca, zona agrícola do município de Santa Cruz, homens e mulheres resistem às dificuldades de água, estrada, electricidade e emigração, trabalhando diariamente nos campos para sustentar as famílias e manter viva a comunidade.

O nome pode enganar quem nunca passou por ali. Ribeira Seca é verde. Verde de cana, banana, batata-doce, papaia e hortaliças cultivadas em pequenas parcelas entre montanhas e encostas. Mas por detrás da paisagem fértil escondem-se problemas antigos, agravados agora pela redução da água na barragem de Poilão.

A Inforpress esteve nesta ribeira e encontrou uma comunidade habituada ao trabalho duro, onde o dia começa antes do nascer do sol e termina apenas quando a luz desaparece entre os montes.

Ainda cedo, já homens e mulheres percorrem caminhos estreitos de terra, enxadas ao ombro, rumo às plantações. Pelo caminho misturam-se vozes, e músicas diferentes saídas de pequenos rádios ou pequenas colunas Bluetooth entre as culturas.

Sob um sol intenso, os agricultores dividem-se entre regar quando há água, limpar terrenos, apanhar produtos e preparar cargas para os mercados. Ali, quase tudo depende da terra. E quando a terra falha, a vida pesa mais.

As crianças também acordam cedo. Alguns percorrem longas distâncias até chegarem às escolas para os que estudam no Ensino Básico numa localidade mais abaixo, enquanto os alunos do secundário aguardam o transporte, pois estudam em São Lourenço dos Órgãos ou Pedra Badejo, enfrentando despesas diárias que muitas famílias têm dificuldade em suportar.

Em tempo de chuva, contam os moradores, a estrada transforma-se num obstáculo quase intransponível e há momentos em que a comunidade fica praticamente isolada.

“Aqui, no tempo de chuva, nós ficamos bloqueados”, contou Avelino de Brito, enquanto observava trabalhadores espalhados pela ribeira.

Segundo explicou, além dos problemas de acesso, a comunidade enfrenta dificuldades com electricidade, água e falta de mão-de-obra agrícola.

A emigração tornou-se parte silenciosa da paisagem. Em muitas casas ficaram apenas os mais velhos e as crianças. Os jovens partem para a Praia, outros para diferentes concelhos ou para o estrangeiro, à procura de oportunidades que a agricultura já não consegue garantir.

“Quando os jovens estudam ou terminam a formação, acabam por sair”, lamentou o agricultor, explicando que a saída da juventude elevou os custos da mão-de-obra e dificultou manter os campos produtivos.

Mesmo assim, Ribeira Seca continua viva graças ao esforço diário de dezenas de famílias que insistem em tirar sustento da terra. Os moradores defendem que apostar no sector primário poderá travar a saída de jovens e criar empregos nas comunidades rurais.

Segundo explicaram à Inforpress, quando um agricultor consegue produzir mais, não beneficia apenas a sua família. Há trabalho para quem prepara terrenos, transporta mercadorias, vende produtos nos mercados, conduz veículos ou ajuda na irrigação e colheita. O mesmo acontece com a pesca, actividade que também sustenta várias famílias indirectamente.

“Um agricultor ou pescador não trabalha sozinho. Quando há produção, muita gente ganha o seu sustento”, afirmou Maria Mendonça Semedo, conhecida por Chuca, defendendo maior investimento do Governo na agricultura e nas pescas.

Para a agricultora, apoiar os sectores primários significa também reduzir a dependência social das famílias. “Se houver apoio, as pessoas trabalham e vivem do seu esforço, sem precisar bater à porta do Governo”, acrescentou.

Outro agricultor, Félix Moreira, disse que a maior preocupação neste momento continua a ser a água. Teme perder as plantações caso não sejam instalados tubos e motobombas para aproveitar a água restante da barragem de Poilão.

A electricidade é outro problema. Em algumas zonas, a energia depende de painéis solares que já apresentam limitações. Quando falha a corrente, falha também a capacidade de bombear água para as plantações.

“Olha que sol tem, mas às vezes não conseguimos puxar água”, desabafou Chuca, olhando para as culturas espalhadas pela ribeira.

Mesmo perante tantas dificuldades, os moradores recusam desistir. “Nós trabalhamos para não bater na porta de ninguém”, afirmou a agricultora, orgulhosa do esforço colectivo de uma população que continua a sobreviver da terra.

Entre o verde das plantações, os caminhos difíceis e o silêncio deixado pelos jovens que partiram, Ribeira Seca continua a acordar cedo todos os dias, agarrada à esperança de que a água não falhe e que o campo continue a dar sustento às famílias.

MC/ZS

Inforpress/Fim

Partilhar