REPORTAGEM: Comida que vai para o lixo e pratos vazios no paradoxo do desperdício dos mercados cabo-verdianos

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REPORTAGEM: Comida que vai para o lixo e pratos vazios no paradoxo do desperdício dos mercados cabo-verdianos
15/09/26 - 12:53 pm

Cidade da Praia, 15 Set (Inforpress) - O contraste diário entre o desperdício alimentar e a carência económica exige sistemas de reaproveitamento em Cabo Verde, onde toneladas de produtos frescos se acumulam e correm o risco de ser descartadas diariamente nos mercados municipais.

Numa ronda pelos mercados e estabelecimentos, a Inforpress constatou que, à medida que as bancas tradicionais começam a fechar portas ao fim da tarde, o cenário repete-se com legumes murchos, fruta excessivamente madura e excedentes de produção que não resistem ao calor a serem deixados para trás.

Embora parte destes resíduos encontre destino na criação de animais ou acabe no lixo, cidadãos e observadores locais alertam que grande parte poderia ser aproveitada para mitigar a insegurança alimentar de agregados vulneráveis.

“O que sobra hoje nos mercados ou pontos de venda, se for triado a tempo, tem todas as condições de consumo e ajudaria muita gente. Se houvesse recolha regular, nós próprias dávamos com gosto”, aponta Zuzu, ‘rabidante’ no Mercado Municipal, referindo que o problema é que, no fim do dia, o que não se consegue vender acaba por se estragar rapidamente com o calor.

A problemática ganha relevo num país onde as instituições de solidariedade social debatem-se com recursos limitados, tornando o desperdício que ocorre nas feiras num paradoxo doloroso face às dificuldades económicas sentidas em muitos lares.

“Custa ver alimentos bons a irem para o lixo quando sabemos que há mães de família a passar por privações severas nos bairros periféricos”, sublinha Ângela Tavares, colaboradora de uma associação de bairro na capital, observando ao mesmo tempo que o desperdício alimentar não é apenas um problema ambiental, mas uma “ferida social” que exige pontes directas entre quem vende e quem precisa.

E do lado de quem sente as dificuldades no orçamento doméstico, a ajuda de excedentes seria um alívio precioso.

Maria da Luz, empregada doméstica, residente em Achada São Filipe, confessa que muitas vezes o dinheiro não estica até ao fim do mês e a fruta ou os legumes frescos se tornam um luxo, defendendo que, se estes alimentos pudessem chegar às famílias através de cantinas ou feiras sociais, fariam toda a diferença na “mesa de um coitado”.

Organizações como o Banco Alimentar de Cabo Verde e associações de defesa do consumidor, como a Adeco, têm vindo a alertar frequentemente para esta dupla face, sublinhando a urgência de combater a perda de alimentos e o impacto ecológico, canalizando-os de forma segura para quem mais precisa.

A anular o potencial aproveitamento está também o custo ecológico, com entendidos em matéria ambiental a lembrar que a deposição de grandes volumes de resíduos orgânicos não tratados em aterros ou lixeiras a céu aberto acelera a libertação de gases com efeito de estufa.

Neste particular, consideram que o desperdício alimentar não esgota apenas os recursos hídricos e agrícolas investidos na produção, gerando também uma sobrecarga ambiental desnecessária que os municípios combatem com dificuldade.

Para que o ciclo mude, operadores do sector e associações cívicas defendem um papel mais activo por parte das câmaras municipais e administrações de mercados, sugerindo a criação de protocolos de cooperação e incentivos para os feirantes.

“Não precisamos de estruturas complexas, mas sim de vontade política e de circuitos de recolha eficientes para que o excedente deixe de ser lixo e passe a ser solução”, sintetiza Madalena Silva, uma das comerciantes locais, sublinhando que a mudança exige acima de tudo proximidade e pragmatismo no terreno.

Assim, o sucesso de um sistema de reaproveitamento no país exige uma parceria multissectorial, unindo o poder local, as associações comunitárias e os comerciantes num esforço comum.

SC/CP

Inforpress/Fim

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