
Lisboa, 01 Nov (Inforpress) - A psicóloga e escritora Emma Kavanagh considera, em entrevista à Lusa, que a psicopatia está associada a uma ascensão ao topo e isso pode ser observado no mundo dos negócios, da política e, logo, entre as lideranças.
Nascida no sul do País de Gales, Emma Kavanagh é doutorada em psicologia pela Universidade de Cardiff, especialista internacional em comportamento humano e desempenho sob condições de stress extremo e ameaça psicológico, e lançou escreveu recentemente o livro "O rasto do psicopata", onde explica como lidar com isso nas relações, trabalho e família.
Sem citar nomes, "o que posso dizer é que sabemos que a psicopatia está associada à ascensão ao topo e isso observa-se no mundo dos negócios, também se vê isso na política", diz, quando questionada sobre o tema.
Os psicopatas "querem sempre subir mais alto do que o patamar em que já se encontram", o que significa que, proporcionalmente encontra-se "um número maior de traços psicopáticos entre as lideranças", afirma.
"Da forma como a sociedade está a configurar-se atualmente, isso seria coerente com a ideia de que há muitas pessoas psicopatas no comando dela", defende a psicóloga.
Uma das características marcantes do "encanto psicopático" é a habilidade de se identificar com o que a pessoa deseja, fenómeno que é observado na esfera política.
"Talvez devêssemos observar como um indivíduo [líderes políticos ou de negócios] trata os membros da sociedade que estão em uma posição mais vulnerável, aqueles que enfrentam maiores dificuldades ou que não têm nada a oferecer em troca", sugere.
Este "é um excelente indicador da verdadeira natureza de cada um".
E o que é um psicopata? "No modelo triárquico, falamos em maldade, audácia e desinibição e, classicamente, consideramos a maldade como o elemento que torna alguém um psicopata — essa capacidade de ser cruel, de ser agressivo, de acumular recursos", explica.
"Depois de todas as investigações que realizei, acredito que o traço mais perigoso seja a audácia, pois é ela que permite que essas pessoas sejam encantadoras", aponta, explicando que é isso justamente que lhes dá a oportunidade de enganar as pessoas.
Essa capacidade "de burlar a nossa vigilância" é, "a meu ver, realmente muito perigosa".
Atualmente, as pessoas estão "mais conscientes" e classificam as situações de uma forma que não era feita antes.
Antigamente, "quando falávamos em psicopatia, referíamo-nos à psicopatia clínica. No livro, defendo que os psicopatas clínicos, de modo geral, dificilmente causarão um impacto profundo na sua vida, pois, muitas vezes, eles agem de uma maneira que os torna visivelmente diferentes", argumenta.
Isto porque "não possuem aquela capacidade, verdadeiramente nefasta, de se esconder à vista de todos — que é, justamente, o que torna a psicopatia tão perigosa" e, por outro lado, "creio que o mundo atual foi, de certa forma, moldado para a psicopatia", diz.
Quanto ao digital, considera ser um "ambiente extremamente superficial, no qual é muito fácil conectar-se com outras pessoas e presumir que aquilo que se vê nelas é, de facto, quem elas são", o que "joga perfeitamente a favor do psicopata", porque exerce o "charme psicopata", prossegue.
"Acredito que o mundo digital favorece, de facto, essas características" e o capitalismo gira em torno do acumular de recursos.
No livro, "abordo o neoliberalismo e aquela noção de que o sucesso na vida é medido pelo quanto se consegue obter, conquistar e reivindicar como seu, isso é psicopatia", salienta.
"O que passamos a considerar aceitável na sociedade atual muitas vezes favorece traços psicopáticos", até porque "aquela frase — 'são apenas negócios, nada pessoal' — poderia ser, por assim dizer, o lema de um psicopata", reforça.
Para se lidar com um psicopata é preciso ter em mente o seguinte: "Nunca presuma que a pessoa é, de facto, quem aparenta ser".
No trabalho que realizou, a psicóloga constatou o "quão poderoso — e destrutivo — pode ser o charme de um psicopata".
Para ilustrar, "imagine quatro pessoas em uma mesma sala: cada uma delas terá uma perceção completamente diferente sobre o psicopata, pois a forma como ele se apresenta depende do que ele acredita que pode obter de si".
Outro ponto importante, "especialmente em relacionamentos, é ficar atento a quem acelera as coisas além do que seria natural para o estágio da relação. Por exemplo, se alguém o chama de 'amor da sua vida' logo no segundo encontro, é muito provável que essa pessoa esteja a praticar 'gaslighting' [manipulação psicológica]".
O livro agora publicado surge na sequência de uma investigação exaustiva que fez sobre o tema enquanto escrevia uma obra de ficção, seguindo a sugestão da sua agente.
Inforpress/Lusa
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