PERFIL: Sorrisos, memórias e confidências – O lado humano da ex-primeira-dama Lígia Fonseca (c/áudio)

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PERFIL: Sorrisos, memórias e confidências – O lado humano da ex-primeira-dama Lígia Fonseca (c/áudio)
11/07/26 - 06:30 am

***Por: Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 11 Jul (Inforpress) – Longe do protocolo do cargo que ocupou, Lígia Fonseca revela a mulher por trás da jurista abrindo o livro da sua vida mais íntima, da infância sob perseguição política na Beira ao “milagre” da maternidade aos 40 anos.

Conversar com a ex-primeira-dama Lígia Fonseca para mostrar o lado humano é fazer uma viagem texturada entre as memórias da infância, os bastidores do poder e as causas que a movem, revelando-se uma mulher de afectos profundos, sorrisos fáceis e uma resiliência serena.

Nesta conversa descontraída, no seu escritório, Lígia Fonseca nos abriu as portas da sua essência mais genuína, as marcas do exílio, a vaidade assumida com charme e a inquieta paixão pela justiça que ainda a move.

Para o mundo, Lígia Arcângela Lubrino Dias Fonseca foi a primeira-dama de Cabo Verde durante uma década (2011–2021), a jurista de postura impecável e a esposa do antigo Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca. 

Mas para quem se senta à mesa do seu escritório ou se cruza com ela num corredor de tribunal, Lígia é uma força da natureza que se recusa a ser simplificada. 

É uma mulher feita de contrastes fascinantes, uma moçambicana de sangue que encontrou em Cabo Verde o seu porto de abrigo, uma advogada de causas duras que não prescinde do batom mesmo quando faz a sua caminhada, uma mãe que lutou 14 anos pelo milagre da maternidade, uma mulher que abraça o seu charme sem falsas modéstias e fez da justiça e solidariedade a bússola da sua existência.

Para compreender a urgência com que Lígia Fonseca vive os direitos humanos e a liberdade, é preciso recuar aos anos 60 e 70, na cidade da Beira, em Moçambique. 

Nascida em 24 de Agosto de 1963, Lígia cresceu no seio de uma família onde a educação era o maior dos investimentos. 

O pai, um homem que desafiou as convenções da época ao levar a mulher doméstica e os filhos para Portugal enquanto se licenciava em Direito nos anos 70, regressou à pátria com o estatuto que a formação lhe conferia, tornando-se num advogado e político influente. 

A vida na Beira era confortável, repleta de tios, primos e tardes de domingo a namorar as montras das lojas fechadas, mas a utopia da independência moçambicana rapidamente deu lugar à sombra da repressão política. 

O pai de Lígia, defensor da legitimidade democrática do povo e co-fundador de um partido alternativo à Frelimo pós-25 de Abril, tornou-se alvo de perseguição. 

Lígia recorda com nitidez o ambiente tenso, as ordens para abandonar a casa de família porque o bairro estava destinado aos novos governantes e as imposições culturais de um regime que controlava desde o uso de calças boca-de-sino até à desfrisagem do cabelo. 

O ponto de ruptura chegou quando o regime tentou enviar o irmão mais velho de Lígia para a União Soviética. 

“Quando mexeram no filho, aí já não dava”, recorda, narrando que numa fuga meticulosamente planeada, a família atravessou clandestinamente a fronteira para a África do Sul, pouco antes do primeiro aniversário da independência de Moçambique, em 1976, e a chegada a Portugal, como “retornados”, foi um choque térmico e social. 

Da vivenda espaçosa com jardins na Beira, os quatro irmãos e os pais viram-se confinados a um quarto duplo numa pensão no Cais do Sodré, numa Lisboa fria e, à época, cinzenta. 

Foi ali que Lígia viu, pela primeira vez, o pai ir abaixo. 

“Tenho a recordação de ver o abatimento do meu pai, ele chorou quando nos entregaram as chaves e fecharam a porta. Mas não durou muito tempo”, revive, referindo que em Setembro, com a resiliência dos grandes homens, o pai já tinha adquirido um apartamento na Avenida Estados Unidos da América e restabelecido a sua actividade como advogado.

Durante toda a sua juventude em Portugal, onde se licenciou em Direito na Faculdade de Direito de Lisboa, Lígia viveu no que descreve como um “estado de suspensão”, e essa sensação de impermanência impediu-a de criar raízes profundas naquele país. 

“Para mim, todos os dias eu pensava que isto era provisório. Eu ia-me embora, os meus amigos e a minha família estavam em Moçambique”, manifestou.

Tudo mudou no quarto ano da faculdade, em 1985, em que ela foi assistir à defesa de tese de mestrado de um jovem assistente africano. 

O homem no púlpito, que enfrentava o júri de professores catedráticos com um brilho fulgurante, era Jorge Carlos Fonseca. 

“Tive um orgulho imenso de ver ali um africano a defender e a sair com a classificação mais alta. Havia já esta mística do homem inteligente que me dava segurança intelectual”, disse.

Unidos pela paixão pelo Direito, pela identidade africana e pela angústia comum de verem os seus países libertos de ditaduras, começaram a namorar.

Havia, contudo, um descompasso geográfico nas suas almas, ela vivia para voltar a Moçambique, enquanto ele só tinha um destino em mente, Cabo Verde.

O casamento aconteceu em 1989, a contragosto dos pais de Lígia, que viam com maus olhos o facto de Jorge Carlos Fonseca ser doze anos mais velho, divorciado e já pai de duas filhas, um passo que antecedeu a partida de ambos rumo a Macau.

A madrugada de Janeiro de 1990 trouxe o telefonema que redefiniria o seu destino quando, do outro lado da linha e em crioulo, chegou o anúncio da abertura política em Cabo Verde, um momento em que Jorge Carlos Fonseca não hesitou em partir de imediato para a frente de campanha, levando Lígia a desfazer a casa em Macau para o seguir.

Cabo Verde tornou-se a sua casa e o palco onde projectou todas as suas ambições de justiça, mas se a integração profissional como advogada foi célere, a vida pessoal reservava-lhe a sua provação mais dolorosa no sonho da maternidade.

Durante 14 anos de casamento, Lígia enfrentou sucessivas interrupções espontâneas de gravidez até que, graças à autonomia da sua profissão, parou a actividade durante um ano para se mudar para Portugal e focar-se num tratamento rigoroso, que culminaria, aos 40 anos e no limite da idade biológica, no nascimento de Rita, hoje com 23 anos.

“Eu tive o privilégio de poder parar e sair do país para ter uma filha. Mas a maior parte das mulheres não pode. A igualdade não pode ser apenas algo que a Constituição declara, tem de ser vivida no dia-a-dia”, reflectiu.

Hoje, afastada das luzes e do protocolo do palácio presidencial, Lígia Fonseca divide o seu tempo entre a pacatez do lar e as consultas exaustivas no seu escritório de advogados, onde confessa que a advocacia a esgota.

“Vivemos os problemas das outras pessoas... Muitas vezes as pessoas não esperam uma solução judicial, estão à espera de uma solução que lhes permita ter paz. E às vezes a paz não chega através do tribunal”, desabafa.

E para desligar do peso do mundo, recorre à sua paixão pelo cinema, definindo-se como uma “viciada em filmes” que encontra no catálogo da Netflix o refúgio necessário para aliviar as suas angústias em relação ao país.

Quanto à sua vida social, conta com uma ponta de nostalgia que esta diminuiu, explicando que, por viver num quarto andar sem elevador, os amigos já rareiam nas visitas, restando as rotinas partilhadas com o marido e o prazer da culinária.

“Cozinho por prazer, detestaria se fosse por obrigação”, confessa, rindo que o seu maior problema é gostar demasiado da própria comida, especialmente mariscos, petiscos e camarão ao alho, o que a faz brigar constantemente com a balança. 

Já as lides domésticas… dessas quer distância. 

“Não gosto de casa desarrumada, mas não gosto nada de arrumar, varrer, limpar o pó, aspirar… oh cansa, que horror. Dá muito trabalho e o meu corpo já não está habituado. A única exigência dominical é fazer a cama rapidamente antes de sair para a missa”, conta. 

Lígia Fonseca, que detesta, acima de tudo, a falsidade daqueles que a bajulavam quando era a esposa do Presidente e hoje desviam o olhar, define-se como alguém que gosta de ser apreciada, mas cuja primeira avaliação vem de si mesma, confessando que gosta de se sentir relaxada, “mas relaxada com charme”.

Uma postura que se revela até ao fim de semana quando, mesmo sem maquilhagem e de vestido largo, os brincos estão lá e o batom, esse, nunca sai, assumindo-se como a sua armadura indelével.

Quando questionada sobre o legado que gostaria de deixar no país e na vida de quem se cruza com ela, Lígia Fonseca afasta-se de discursos grandiosos ou vaidades políticas. 

Para a antiga primeira-dama, a sua missão resume-se à utilidade de saber que usou os seus privilégios, conhecimentos e ideias para transformar vidas de forma prática.

“Gostava de ser reconhecida por esse trabalho em prol do bem-estar e de alguma felicidade na vida das mulheres”, confessa, desejando ser lembrada como uma força de inspiração.

SC/HF

Inforpress/Fim

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