PERFIL: Dinastela revisita uma vida dividida entre a carreira e o amor incondicional à família (c/áudio)

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PERFIL: Dinastela revisita uma vida dividida entre a carreira e o amor incondicional à família (c/áudio)
06/06/26 - 01:30 am

***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 06 Jun (Inforpress) - Entre o rigor dos Recursos Humanos e o desafio de aprender violino aos 67 anos, Dinastela Elias Curado partilha as memórias de uma vida sem linhas rectas, dividida entre a carreira e o amor incondicional à família.

Ao som dos acordes desafiantes de um violino que aprende a tocar na reforma, a gestora cabo-verdiana e mãe da artista Mayra Andrade revisita uma vida guiada por dois grandes pilares, a família e a carreira, provando que o verdadeiro legado não se mede em contas bancárias, mas na integridade das relações e na coragem de continuar a aprender.

Desta vez a Inforpress viajou ao Guest House SalaV para uma conversa intimista, um desabafo descontraído, entre algumas risadas, com alguém que viveu em tantas frentes e acompanhou de perto o desabrochar de grandes talentos e momentos do seu país, Cabo Verde.

Embora tenha formação na área de Gestão dos Recurso Humanos em Portugal no final dos anos 70, a sua trajectória está profundamente ligada às dinâmicas culturais, diplomáticas, familiares e sociais que cruzam Cabo Verde e o mundo.

Aos 67 anos, há quem procure o descanso definitivo da reforma e Dinastela universalmente conhecida como Dina, preferiu comprar um violino.

Matriculou-se na Academia Cesária Évora e, sob a mentoria de um professor brasileiro, desafia as articulações e a paciência num dos instrumentos mais complexos do mundo.

“As pessoas nunca param”, diz Dinastela entre risos, nascida em Setembro de 1958, sob o signo de Virgem de onde herdou o rigor, o sentido de organização e uma auto cobrança quase feroz.

O local de nascimento foi São Vicente, fruto da colocação militar do pai, o português José da Cruz Curado, mas o sangue e a identidade são de Santiago, porque, conforme conta, aos três anos, a família regressou à Praia onde passou a viver.

Numa casa de seis meninas e nenhum rapaz, Dina cresceu rodeada por uma roda viva de afecto, e as memórias mais bonitas remetem para as férias grandes em Rui Vaz, nas propriedades do avô materno, onde a mãe, Maria Isabel, cresceu.

Ali, entre o nevoeiro das montanhas e as reuniões familiares, moldou-se uma infância que recorda como “equilibrada e muito feliz”.

Na educação que recebeu, o saldo bancário era o que menos importava, realçando que a moeda corrente era o respeito, a solidariedade e o trabalho.

A sua juventude coincidiu com um Cabo Verde em plena ebulição e transformação histórica, contudo, as suas ambições voavam mais alto.

Aos 17 anos, recém-saída do liceu, estreou-se no mundo laboral no Ministério dos Transportes, sem qualquer experiência administrativa, encontrou no Sr. Omar Lima o mentor que lhe ensinou os primeiros passos.

Casou-se muito cedo, em 1975, pouco depois, já mãe da primeira filha, Andreia, tomou uma decisão audaz para a época, tendo partido para Portugal para estudar.

Chegado lá, com uma criança de apenas três anos pela mão, licenciou-se em Gestão de Recursos Humanos no Instituto Superior de Gestão (ISG), em Lisboa, entre 1979 e 1983.

Ao regressar a Cabo Verde, ingressou nos TACV. Ali, com o apoio de figuras como José Gonçalves e a veterana Dona Raquel Souza, Dina transformou a teoria académica em prática, assumindo com pulso firme a Direcção de Recursos Humanos da companhia de bandeira.

“Tive muitas oportunidades. É claro que também tive dificuldades. Mas, nesta minha vida adulta, e falando de carreira, cruzei com pessoas que me ensinaram bastante. Eu aprendi muito. Quis aprender também”, declarou.

“Houve pessoas que, de facto, me ajudaram bastante nesta minha vida adulta, nesta minha carreira… me ajudaram a crescer e a desempenhar os diferentes papéis que eu acabei por desempenhar”, manifestou em jeito de gratidão.

Para lá de tudo que conquistou na carreira, a maior realização de Dina é sem surpresa, a família.

Mãe de três filhos, Andreia, Mayra e Ben-Hur, a sua jornada pela maternidade foi desenhada com contornos de pura resiliência.

Conta que na primeira viagem maternal, o nascimento de Andreia, trouxe o impacto avassalador de se tornar responsável por uma nova vida.

Anos mais tarde, por motivos de saúde, viu-se a dar à luz a sua segunda filha, Mayra, em Cuba, absolutamente sozinha, longe da família, num momento que descreve como “duro”, mas marcante.

Já o terceiro filho, Ben-Hur, nasceu no Senegal, num parto mais leve e rodeada pelo calor familiar.

Entre os filhos, destaca-se um fenómeno global, a Mayra Andrade, uma das maiores embaixadoras da música de Cabo Verde.

Segundo Dinastela, conciliar a carreira de gestora com o papel de mãe, para guiar, orientar e educar a sua prole, não foi fácil.

“O papel dos pais é acompanhar, orientar e confiar”, resume Dina.

Quanto à Mayra, por exemplo, embora transborde de orgulho ao ver a filha pisar os palcos mais prestigiados do mundo levando o nome das ilhas, Dina confessa comovida, realçando que o que lhe orgulha mais não é apenas a artista que ela se tornou, mas a mulher que ela é, “íntegra, batalhadora, sensível e profundamente ligada às raízes”, enfatizou com satisfação.

Hoje, essa mesma árvore familiar expande-se e ganha novas ramificações, pois, a contagem de afectos de Dina soma agora cinco netos, sendo três meninas e dois rapazes.

Testemunhando o crescimento da família, com o carinho típico de quem vê a vida renovar-se, ela detalha a orgulhosa estrutura desta nova geração.

“Olha, o meu primeiro neto é um rapaz, um rapaz que é o filho da minha filha mais velha. Aliás, os três primeiros são da minha filha mais velha”, enumera com visível alegria no semblante.

A linhagem estende-se com o mesmo aconchego aos outros ramos da casa.

O seu filho Ben-Hur é pai de uma menina, e a cantora Mayra Andrade deu também continuidade a este legado feminino, sendo mãe de uma menina.

“Organizada, metódica e focada”, Dina Curado revela que o segredo da sua produtividade e lucidez está na forma como se sintoniza com o amanhecer, notando que o início do dia é o seu verdadeiro santuário intelectual e criativo.

Para lá dos acordes desafiantes do violino com que hoje ocupa os dias, o universo cultural de Dinastela é profundamente habitado pela intemporalidade dos clássicos, pelo que, quando procura paz interior e o conforto das memórias, é à música clássica que recorre.

Esta paixão pelo clássico estende-se de forma natural ao cinema, assumindo-se como uma cinéfila que encontra abrigo em rever as grandes obras da sétima arte, como o Padrinho (The Godfather), por exemplo, também o clássico Ben-Hur, cuja força daquela obra marcou-a tanto que ditou o nome do seu filho varão.

Se a vida de Dina se divide entre a família e a profissão, é entre tachos, panelas e uma mesa cheia de amigos que ela encontra o seu verdadeiro reduto criativo.

Entretanto, para ela, a cozinha está longe de ser uma obrigação diária, mas sim, um espaço de liberdade e expressão.

“Gosto muito de cozinhar, dá-me imenso prazer. Para mim, a cozinha é um espaço criativo, e como gosto sempre de procurar coisas novas e de criar, acaba por ser uma das formas preferidas de ocupar o meu tempo”, partilhou.

Esta paixão estende-se naturalmente à arte de bem receber, pois, o pretexto de partilhar uma refeição é, no fundo, uma celebração dos afectos.

“Receber amigos, conversar e discutir ideias à volta da mesa são momentos que me preenchem. Sempre que posso, abro as portas de minha casa para recordarmos histórias e conversarmos”, conta, revelando que o seu menu tem um prato estrela, a cachupa, embora nunca feche a porta à inovação, e é especialista em outros pratos, como lasanha de polvo.

Se a cozinha é sinónimo de prazer e criatividade, o resto da rotina doméstica exige um esforço diferente.

Com total honestidade, confessa que a organização da casa é feita por necessidade, não por vocação.

“As lides de casa não são, de todo, o que mais gosto de fazer. Prefiro passar um dia inteiro na cozinha do que a tratar das limpezas ou da arrumação”, assume entre risos.

Quando questionada sobre como cultiva a sua vida social, Dina Curado simplifica, respondendo, que se gravita essencialmente em torno da família, do contacto humano e do consumo de arte.

Ao olhar para trás e fazer o balanço de uma vida sem linhas rectas, Dina resume a sua existência a duas forças motrizes incontornáveis.

“A minha vida tem sido esses dois grandes alicerces: A família e a profissão. E no meio disto tudo, são as relações que a gente estabelece ao longo da vida, as relações de amizade, profissionais e tudo isso”, exteriorizou, notando que na profissão, o seu grande norte nunca foi o estatuto, mas a utilidade social e o impacto na vida colectiva.

“Não é a conta bancária que define as pessoas. O que nos molda são os valores, o rigor e a nossa capacidade de continuar a aprender, a sonhar e a acreditar”, reiterou Dina Curado, considerando-se uma mulher realizada e de bem com a vida.

SC/ZS

Inforpress/Fim

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