
Cidade da Praia, 28 Jul (Inforpress) – Escritor, jornalista e editor Dai Varela tem dedicado grande parte da sua actividade de escritor à literatura infantil, defendendo os livros como instrumentos de formação de leitores, cidadania e preservação da identidade cabo-verdiana.
Em entrevista à Inforpress, sustenta que a literatura constitui um meio de educação, cidadania e preservação da memória colectiva, atribuindo aos livros um papel determinante na construção do futuro de Cabo Verde.
Antes de se afirmar como escritor, desenvolveu uma carreira ligada ao jornalismo, à edição, à comunicação e à promoção cultural.
Essa experiência permitiu-lhe conhecer, de perto, os desafios da criação, produção e circulação do livro no país e moldou a visão que hoje tem sobre o sector editorial cabo-verdiano.
A aproximação à literatura infantil surgiu de forma gradual. À medida que foi descobrindo esse universo, percebeu que escrever para crianças exigia uma responsabilidade acrescida. Rejeita a ideia de que se trata de um género menor ou mais simples e defende que a escrita para os mais novos exige rigor, criatividade e uma linguagem acessível, sem nunca subestimar a inteligência dos leitores.
Convencido de que as crianças reconhecem facilmente histórias artificiais ou excessivamente moralizadoras, procura construir narrativas em que os valores surgem naturalmente, através das personagens e das situações, permitindo que cada leitor faça a sua própria descoberta.
Entre as preocupações centrais da sua obra está a necessidade de as crianças cabo-verdianas encontrarem nos livros personagens próximas da sua realidade.
Sem negar a importância dos grandes clássicos universais, considera essencial que os leitores mais novos possam reconhecer-se na literatura produzida no seu próprio país.
Foi dessa convicção que nasceu “Tufas, Princesa Crioula”, personagem concebida para representar uma heroína enraizada na cultura cabo-verdiana. Mais do que uma princesa, Tufas é uma criança curiosa, solidária e determinada, criada para que outras crianças possam reconhecer nos livros os seus modos de viver, falar e sonhar.
Para Dai Varela, esse reconhecimento fortalece o sentimento de pertença e contribui para a valorização da identidade cultural desde a infância.
A preservação da tradição oral ocupa, igualmente, um lugar de destaque no seu trabalho.
Em Mnine Butióde recuperou uma narrativa do imaginário popular cabo-verdiano que sobrevivia sobretudo na memória dos mais velhos. O autor reuniu diferentes versões da história antes de a transformar numa obra em banda desenhada ilustrada por Tozé Art, procurando demonstrar que preservar o património oral significa também encontrar novas formas de o transmitir às gerações mais jovens.
Ao longo da entrevista, estabelece uma relação permanente entre literatura, educação e cidadania. Defende que os livros vão muito além do entretenimento, contribuindo para o desenvolvimento emocional, social e cívico das crianças, ajudando-as a compreender melhor o mundo e a construir relações com os outros.
Essa convicção reflecte-se igualmente na formação de leitores. Embora reconheça que Cabo Verde dispõe hoje de mais autores, mais livros publicados e mais estudantes do que nas primeiras décadas após a Independência, considera que o país continua distante dos níveis de leitura desejáveis.
Na sua opinião, criar hábitos de leitura depende do envolvimento das famílias, das escolas, das bibliotecas, das editoras e das instituições públicas. Defende, igualmente, a produção regular de estudos sobre hábitos de leitura e níveis de literacia, sustentando que políticas públicas eficazes só podem assentar num conhecimento rigoroso da realidade.
Defende, por isso, um verdadeiro ecossistema do livro, baseado na articulação entre escritores, editoras, bibliotecas, escolas e Estado, capaz de assegurar uma estratégia consistente de promoção da leitura.
Sobre a política linguística, considera que o reforço da biliteracia deve anteceder a generalização do ensino bilingue e aponta como prioridade a formação de professores plenamente competentes na leitura e escrita tanto em português como na língua cabo-verdiana.
No plano das políticas culturais, reconhece a importância dos festivais e dos grandes eventos para divulgar a cultura nacional, mas entende que o desenvolvimento do sector exige, igualmente, um investimento continuado nas editoras, nas bibliotecas, na formação artística e na promoção da leitura.
Ao longo da entrevista, evita centrar o discurso na própria trajectória ou em distinções pessoais. Prefere falar dos livros, das crianças e da responsabilidade colectiva de formar leitores.
Entre o jornalismo, a edição e a literatura, Dai Varela mantém a convicção de que o futuro da leitura começa na infância. Para o escritor, apostar nos livros é apostar simultaneamente na cidadania, na memória colectiva e na identidade de Cabo Verde.
JMV/HF
Inforpress/fim
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