PERFIL: Avelino Bonifácio troca brilho dos gabinetes pelo silêncio do mar e confessa que o poder não o cega (c/áudio)

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PERFIL: Avelino Bonifácio troca brilho dos gabinetes pelo silêncio do mar e confessa que o poder não o cega (c/áudio)
26/09/26 - 04:00 am

*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 26 Set (Inforpress) – O economista Avelino Bonifácio Lopes, hoje a chefiar a Casa Civil, este “Touro” obstinado que trocou o brilho dos gabinetes pelo silêncio do mar, confessa que a vida lhe ensinou tanto que o poder não o cega.

Nesta entrevista, sentado descontraidamente no seu gabinete na Presidência da República, Avelino Bonifácio Fernandes Lopes, seu nome de baptismo, fala um pouco sobre si, das várias vidas, suas alegrias, satisfações, aspirações, a infância descalça, o mar aos treze e a razão do poder, numa tonalidade de voz muito calma e serena, entre rasgados sorrisos, no ambiente silencioso das quatro paredes da Casa Civil.

Hoje, sentado no coração da máquina do Estado cabo-verdiano como Chefe da Casa Civil da Presidência da República, licenciado em economia e mestre em relações económicas internacionais, Avelino carrega na pele e na memória o pó, o sal e o suor de uma origem onde a sobrevivência diária era uma vitória.

Nascido a 14 de Maio de 1963 em Rebelo Baixo, na freguesia de São Salvador do Mundo, este “Touro” obstinado guarda na persistência o reflexo exacto da natureza do seu signo.

Mas o que moldou o homem de hoje foi, sem margem para dúvida, a dureza de uma infância passada entre a secura severa do interior profundo de Santiago e o trabalho implacável de uma família de oito irmãos, sendo sete rapazes e uma menina.

Neste desabafo mais intimista para revelar o outro lado da pessoa, nota-se que as memórias de infância de Avelino doem pelo realismo cru numa comunidade isolada onde só nos anos 90 chegaram as primeiras vias de acesso e a água escasseava dramaticamente, tendo vivido a dureza dos anos 60 e 70.

“Eu era uma criança mal nutrida, desnutrida mesmo. Na primeira classe, devia ter os meus oito anos e pesava 18 quilos. Fiz tudo quanto era trabalho de homem, mas tudo quanto era também trabalho de mulher… carregar água, apanhar lenha, tratar da comida, ‘cotxi midjo’ (separar o milho do farelo entre batida rítmica e forte no pilão), cozinhar”, descreveu.

Lembra-se que com menos de dez anos, já trabalhava nas frentes públicas de trabalho remunerado abertas pelo governo colonial, intercalando o esforço físico nas estradas com os livros da escola.

Aos 11 anos, enfrentava a madrugada escura a pé, caminhando quilómetros por veredas invisíveis para ir buscar ração para animais ou carregar latas de banha de cinco quilos à cabeça desde Assomada, e o mar, esse gigante azul que hoje abraça religiosamente todas as semanas, só o conheceu de perto aos 13 anos.

A fome de saber, contudo, era maior do que a fome no prato, pois quando a quarta classe parecia ser o ponto final da linha numa comunidade sem horizontes, uma noite inteira a chorar no escuro convenceu o pai a levá-lo para a Praia.

Seguiram-se os quilómetros diários a pé rumo à escola nos Picos, os estudos nocturnos após um dia inteiro de trabalho duro, a tropa no quartel Jaime Mota e uma reviravolta digna de romance que culminou numa bolsa de estudo para a então União Soviética.

De Odessa a Kiev, Avelino Bonifácio viveu seis anos na Ucrânia, mergulhando num mundo que hoje observa com uma enorme tristeza e frustração face ao conflito actual.

Ali, entre aulas em russo e invernos rigorosos, viajou de comboio pelos confins do império soviético, da Chechénia à Crimeia, passando por São Petersburgo e Minsk.

Imagina um jovem cabo-verdiano, saído do calor do interior de Santiago, a passar férias de Inverno a fazer ski nas montanhas russas após dois dias de comboio, ou a veraneio no Mar da Crimeia.

Essa bagagem cosmopolita, feita de convívio com dezenas de nacionalidades, transformou-o num homem de mente aberta, capaz de falar russo com a mesma naturalidade com que evoca as raízes crioulas.

De regresso a Cabo Verde, o percurso profissional foi meteórico, passando por cargos como o de director-geral do Comércio, secretário de Estado e ministro da Economia, Crescimento e Competitividade, além de uma longa carreira como consultor internacional que o levou a dezenas de países.

No entanto, a passagem pelo governo deixou-lhe marcas de profundo desencanto.

“Não foi a melhor experiência profissional que tive. Achava que um ministro tinha mais poderes do que de facto tem... Percebi que nem tudo o que parece é. Nem sempre as decisões são tomadas por quem parece que toma. A profissão que mais me deu prazer fazer foi consultoria, porque me dá liberdade completa”, confessou.

Crítico feroz da bajulação, que considera o reflexo de quem não tem carácter, autoestima ou princípios, e do “mundo virtual” em que os poderosos muitas vezes vivem rodeados de bajuladores, Avelino escolheu refugiar-se naquilo que é real e tangível.

Nunca quis saber de militância partidária, preferindo manter a linha vermelha da sua consciência intacta e optando pelo silêncio da natação matinal, onde confessa que resolve os problemas mais complexos de olhos fechados, a boiar de costas, em detrimento dos gabinetes frios do poder.

Fora dos holofotes, Avelino é um homem de laços sólidos que vive com a companheira de toda a vida há mais de 30 anos numa família numerosa e reconstruída com cinco filhos, gerida sem papel passado, mas com a solidez de quem acredita que o que conta é a substância, não a burocracia.

No amor, assume-se prático e guiado pela razão, sem grandes floreados românticos, sendo que nos tempos livres, além da caminhada matinal de hora e meia e da natação aos fins de semana, reencontra-se nos tachos.

Uma paixão culinária que vem de longe, já que aos sete anos cozinhava para alimentar o pai nas frentes de trabalho e a família na lavoura.

“Gosto de cozinhar, mas quando se tem mulher em casa cozinhar fica difícil, porque a mulher fica sempre a pôr defeito... Gosto de comida muito bem temperada, com tempero forte e acentuado à mistura com legumes e verduras”, disse.

A vida de Avelino Bonifácio guarda também o humor das pequenas peripécias, revelando-se precoce no campo sentimental, pois aos 12 anos já andava em conquistas e, noutras coisas, manteve sempre a mesma audácia.

Conta que teve uma pretendente que, após meses de cortejo, lhe marcou o dia e a hora exactos para o “sim”, mas, na hora H, a mãe mandou-o fazer um trabalho doméstico, o que fez o encontro falhar e o namoro nunca acontecer, uma história de que hoje se ri a bom rir quando se cruza com ela na rua.

E depois há a célebre história da fotografia de infância, quando há cerca de 12 anos, esteve prestes a ser homenageado pela Fundação Infância Feliz, presidida pela ex-primeira-dama Adélcia Pires, ao lado de figuras históricas como Aristides Pereira, Pedro Pires e António Mascarenhas Monteiro, num restrito lote de crianças pobres que ascenderam ao topo da nação.

Explicou que a condição era simples de cumprir, bastando apresentar uma fotografia de infância, mas como a primeira foto que tirou na vida foi aos 12 anos para o bilhete de identidade, e a única cópia tinha sido enviada para um irmão na imigração, a homenagem acabou por cair por terra.

Hoje, Avelino ainda brinca, e avisa que não perdoa totalmente ao irmão por causa daquele postal perdido no tempo.

Quem o vê com este percurso não espere um homem de grandes pompas, pois Avelino assume sem pudor que tem pouca vida social e que é um péssimo dançarino.

Ainda assim, entre tertúlias com amigos de longa data e conversas de café, nunca perdeu o jeito popular nem a facilidade de escutar quem se cruza com ele, preferindo sempre a simplicidade dos seus aos salões mundanos.

Entretanto, olhando para trás, Avelino Bonifácio não precisa de fotografias antigas para provar quem é, pois, o menino franzino de 18 quilos em Rebelo Baixo construiu, passo a passo, a fio de teimosia e razão, uma história luminosa.

É, acima de tudo, um homem que nunca esqueceu de onde veio, sabendo exactamente quem é quando o espelho reflecte o cidadão comum, longe de todas as luzes da ribalta.

SC/CP

Inforpress/Fim

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