PERFIL: Ana Maria Fonseca Hopffer Almada abre o coração sobre amor, fé e suas raízes num testemunho emocionante (c/áudio)

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PERFIL: Ana Maria Fonseca Hopffer Almada abre o coração sobre amor, fé e suas raízes num testemunho emocionante (c/áudio)
07/08/26 - 02:01 am

*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 07 Ago (Inforpress) - Conhecida como uma figura de elegância impecável e reservada, a professora Ana Maria despe-se das armaduras da vida pública para revelar o seu lado mais humano e a essência da mulher que nunca esquece as suas origens.

Num testemunho emocionante, a ex-docente de Biologia que formou gerações, repassa o seu percurso de vida, desde a infância saudosista no Mindelo e o legado do pai, o namoro por cartas que resultou num casamento de quase cinco décadas com David Hopffer Almada, seu primeiro e único homem, as dores maternas perante os bastidores da política e a fé inabalável que a leva a trocar a festa dos seus 70 anos, no próximo ano, pela construção de uma capela no Fogo.

Há um rigor elegante e uma mansidão quase devota na forma como Ana Maria de Fátima Nogueira Fonseca Hopffer Almada, seu nome de baptismo, conta a sua própria vida.

Para o grande público, habituado aos meandros da vida pública cabo-verdiana, o apelido Hopffer Almada carrega o peso inevitável da história política do país, mas, ao despir-se das formalidades numa conversa intimista, a mulher por trás da instituição revela um universo onde a fé, as memórias de infância e uma fidelidade inabalável às suas raízes superam qualquer holofote.

Antes de tudo, faz questão de repor a sua identidade por inteiro.

“O meu pai disse-me claramente: ‘Filha, tu não perdeste o teu nome, tu ganhaste um nome’. Tenho muito orgulho no apelido do meu marido, mas não aceito que me tirem o meu nome de família. Sou Fonseca, sou Nogueira”, desabafa, num sorriso firme que carrega a memória do pai, o falecido Sr. Dinis.

Nascida a 30 de Abril de 1957, na Vila de Nova Sintra, ilha Brava, onde guarda o seu umbigo, Ana Maria rumou a São Vicente com apenas três meses de vida, tendo sido na Rua de Cavoquim, no Mindelo, que construiu o seu imaginário infantil.

“Tenho memórias muito boas. Lembro-me de fugir até ao Palácio para ver o pássaro e a vista da Rua de Lisboa. Como não gostava de comer, a vizinhança passeava comigo para me dar comida. Diziam que eu era leve como uma pena”, recorda Ana Maria, a única menina no meio de três irmãos rapazes, João Manuel, Dinis e o saudoso Zé, crescida rodeada de afecto.

Desses tempos dourados sobressai a figura paternal de Dinis Dias da Fonseca, funcionário das Finanças, fotógrafo, desportista e emblemático presidente do Clube de Derby, um autodidata brilhante que ascendeu na carreira pública ostentando apenas a 4.ª classe e deixando à filha um legado inestimável de rigor e conduta.

Segundo Ana Maria, antes de partir, em 2007, o pai eternizou a sua jornada no livro “Memórias - Do Hoje ao Ontem: uma história para contar”, onde confessou o grande sonho de tomar a bandeira de São Filipe, na Ilha do Fogo, berço das suas origens familiares.

Em 2010, cumprido o luto, ela e os irmãos realizaram a vontade do pai na ilha do Fogo, apresentando a sua obra e prestando-lhe homenagem com um concerto de violino, instrumento que Dinis tocava com mestria.

Já a mãe, Dona Josefina ou Dona Fina, devota fervorosa de Nossa Senhora de Fátima, foi a sua melhor amiga, sendo exactamente da promessa da progenitora para ter uma menina que nasceu o seu nome: Ana, pelas duas avós, e Maria de Fátima, pela santíssima.

A juventude de Ana Maria Fonseca Almada foi marcada pelo estudo e pela disciplina rigorosa de uma casa onde “namoro só depois dos estudos”, tendo em Outubro de 1975, integrado o primeiro grupo de bolseiros cabo-verdianos a embarcar para França.

“Fui o caminho todo a chorar. Daqui até França. A separação da minha mãe foi duríssima”, confessa, mas ao regressar em 1977, trazia no coração uma história de amor invulgar.

É que, David Hopffer Almada, 12 anos mais velho, divorciado e prestes a assumir altas responsabilidades governamentais, apaixonara-se por ela antes da sua partida.

Sem que Ana soubesse, conseguiu o seu endereço em França e pediu autorização aos pais dela para lhe escrever.

“O nosso namoro foi praticamente por correspondência, até porque quando voltei, em Junho de 1977, casei-me a 30 de Julho desse mesmo ano com apenas 20 aninhos, tendo sido ele o meu primeiro e único homem”, revela, num tom de carinho contagiante.

A união, que completa 49 anos, foi celebrada no civil em 1977 e renovada na Igreja em 1991, por uma razão profundamente pessoal.

“Eu sou católica praticante e queria muito comungar das mãos do Papa João Paulo II quando ele veio a Cabo Verde. Para isso, tinha de estar casada pela Igreja. E assim foi, no Seminário, pelo Padre Pimenta. Comunguei mesmo das mãos do Papa”, conta com satisfação.

Entretanto, ser esposa de um jovem ministro nos primórdios da Independência exigiu resiliência.

Entre o medo de ficar sozinha no apartamento da antiga Pensão Moreira e a modéstia dos vencimentos da época - o dinheiro às vezes não dava e tinha de ir pedir ao meu pai -, Ana Maria desdobrava-se como professora no Liceu Domingos Ramos, leccionava gratuitamente à noite e cuidava da primeira filha, Janira e anos mais tarde, nasceria Romina.

Licenciada em Biologia pela Universidade de Coimbra, a sua vocação consolidou-se nas salas de aula, passando pelas suas mãos 22 anos de alunos no Liceu Domingos Ramos e duas décadas de futuros biólogos na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

“Os médicos, a minha oftalmologista, os arquitectos, os engenheiros... a grande maioria foram meus alunos, e guardo dedicatórias e poemas lindos que eles me escreveram ao longo dos anos, memórias que ainda pretendo publicar num livro”, conta com o orgulho estampado no olhar.

Hoje, no entanto, é na Fundação Donana, instituição a que se dedica há 15 anos e que preside vitaliciamente, que canaliza toda a sua energia, mantendo viva uma estrutura financiada exclusivamente com património próprio da família e guiada pelo lema “Juntos a trabalhar por um mundo melhor”.

“Nós viemos ao mundo com um propósito. O que Deus nos dá é por empréstimo, não levamos nada connosco. Tudo o que temos tem de ser partilhado”, defende.

Por trás da imagem impecável - traço de vaidade herdado da mãe e do pai, que ia trabalhar de fato e gravata -, Ana Maria é uma mulher de rotinas simples.

Em casa, prefere vestidos leves de alça e chinelos, gosta de tratar das limpezas, fazer rendas e crochê (como a manta que teceu para os netos), embora admita que a cozinha fica melhor entregue às empregadas, a quem fez questão de ensinar todas as receitas do seu livro pessoal.

Confessa, sem qualquer pudor, dois detalhes curiosos: não gosta de festas nem sabe dançar, lembrando até que em França os colegas tentaram ensinar-lhe, mas sem sucesso, sendo o funaná com o marido a sua única excepção, ao mesmo tempo que admite guardar um medo quase infantil do “outro mundo” - o universo dos espíritos, assombrações e do sobrenatural que a acompanha desde os tempos de menina.

“Não tenho medo de pessoas, confio em toda a gente. Mas tenho um medo terrível de histórias de espíritos e do outro mundo que a Berta, a senhora que nos criou, nos contava em criança. Se ouço um barulho à noite, fico logo arrepiada”, diz, a rir-se de si própria.

Embalada nesse seu desabafo, Ana Maria confessa que a única verdadeira mágoa que carrega não vem da sua vida, mas da exposição da família.

“Nunca entrei na política, mas o meu marido foi político e agora a minha filha Janira Hopffer Almada, actual presidente da Assembleia Nacional também é. Detesto a hipocrisia, a maldade e o cinismo. Prefiro que me façam mal a mim do que à minha filha. A maldade das pessoas na política magoa-me muito, mas rezo por elas. Estamos todos de passagem”, exteriorizou.

Aos 70 anos, que completará a 30 de Abril, recusa categoricamente uma celebração convencional, revelando que o seu presente de aniversário para si e para a comunidade será a inauguração de uma capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima, erguida no Monte Barro, na ilha do Fogo, no terreno que pertenceu aos seus avós.

“Essa vai ser a minha festa. Uma missa de acção de graças, a inauguração da capela e um almoço aberto para toda a gente, sem lista de convidados”, anuncia.

No final da tarde, a sua hora favorita do dia, Ana Maria gosta de contemplar o crepúsculo vespertino no seu jardim ou junto à piscina, encontrando na mudança de luz a serenidade que pauta a sua existência.

Se lhe perguntarem qual o legado que deseja deixar a Cabo Verde, a resposta surge sem hesitação, como quem lê o quadro oferecido pelo seu amigo Frei Gilson que guarda na fundação.

“O material vale o que vale, o importante é o espiritual. O meu legado é este: Amar é fazer o bem sem olhar a quem”, concluiu.

SC/CP

Inforpress/Fim

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