
Cidade da Praia, 12 Jun (Inforpress) – O cantor, compositor e instrumentista João Cirilo Pereira Monteiro, conhecido como “Pó d'Terra”, destacou-se na divulgação do funaná tradicional cabo-verdiano, construindo uma carreira internacional marcada pela valorização das raízes culturais do arquipélago.
Natural de Poilão de Engenho, no concelho de Santa Catarina, ilha de Santiago, João Cirilo Pereira Monteiro nasceu em 1954 e cresceu em Arribada, localidade onde viveu desde os quatro anos de idade.
As memórias da infância estão ligadas às frequentes visitas à avó, Carolina Correia Tavares, e aos encontros musicais promovidos por familiares e gaiteiros da região, experiências que despertaram o seu interesse pela música tradicional cabo-verdiana.
Em entrevista à Inforpress, o artista recorda que foi nesse ambiente que nasceu a sua paixão pelo funaná, ao observar os tios da mãe, Totti e Manuel da Veiga, a tocar com diversos músicos vindos de outras localidades.
Em 1972 emigrou para Portugal, onde conciliou o trabalho na construção civil com os estudos, a prática musical e outras actividades.
Apesar das dificuldades enfrentadas, incluindo problemas de saúde que o afastaram de outras actividades, encontrou na música a principal motivação para prosseguir o seu percurso.
Durante esse período adquiriu a primeira guitarra, frequentou aulas de piano e começou a participar em grupos musicais da comunidade cabo-verdiana.
A integração nos grupos Os Merenguitos e Black Star Musical constituiu uma das primeiras etapas da sua carreira artística, antecedendo a criação dos Diamantes Africa Band.
Em 1978 lançou o primeiro álbum, “Iluson Dess Mundo”, trabalho que considera fundamental para o desenvolvimento das suas capacidades musicais e para a consolidação do seu percurso artístico.
Mais tarde gravou o álbum “Pó d'Terra”, acompanhado por músicos de referência da música cabo-verdiana radicados em Portugal, entre os quais Paulino Vieira e Bebeth.
O disco, lançado numa fase de grande popularidade do funaná eléctrico, alcançou significativo sucesso junto do público cabo-verdiano.
O músico recorda, igualmente, a colaboração com elementos do grupo Voz de Cabo Verde, experiências que considera determinantes para o enriquecimento da sua inspiração artística.
Em 1982 mudou-se para os Estados Unidos da América para se juntar a familiares já residentes naquele país. A mudança marcou uma nova etapa da sua carreira, permitindo-lhe expandir a actividade musical junto das comunidades cabo-verdianas e do público norte-americano.
Nos Estados Unidos integrou inicialmente a Afrow Band como baixista e colaborou posteriormente com a Tropical Power, banda liderada pelo falecido Norberto Tavares. A partir dessas experiências, passou a receber convites para actuar em diversos eventos e festivais.
Foi também nesse período que aprofundou a aprendizagem da gaita, instrumento que viria a tornar-se uma das suas principais marcas artísticas.
Segundo explicou, aprendeu de forma autodidacta, inspirado pelos defensores da música tradicional cabo-verdiana.
Embora seja amplamente associado ao funaná, João Cirilo destaca que o seu repertório inclui igualmente mornas, coladeiras, batuques, reggaes e outros géneros da música cabo-verdiana.
Entre as composições mais marcantes da sua carreira aponta “Pó d'Terra Raízes”, tema que considera especialmente importante pelo carinho com que foi recebido pelos cabo-verdianos residentes no arquipélago e na diáspora.
Ao longo da carreira participou em diversos festivais e espectáculos internacionais. Entre os momentos que guarda com particular emoção destaca as actuações realizadas em 2002 e 2012, em San Antonio, no Texas, Estados Unidos.
O projecto Pilon Batuko constitui outra etapa relevante do seu percurso. O artista recorda que a produção enfrentou dificuldades técnicas, obrigando à repetição integral das gravações após a perda dos ficheiros originais.
Em 1997, durante a participação no Festival da Gamboa, conheceu Iduino Ferro Gaita, encontro que resultaria, posteriormente, na gravação do álbum “Kancera di Spera”.
O projecto foi concretizado alguns anos mais tarde nos Estados Unidos e contou igualmente com a participação do baterista Lobo.
Actualmente, o músico encontra-se a preparar um novo trabalho em colaboração com o maestro Kim Alves. O projecto inclui cinco temas tradicionais e deverá ser acompanhado por videoclipes a lançar em data ainda por anunciar.
Ao analisar o panorama musical cabo-verdiano, João Cirilo considera que a preservação da cultura nacional constitui um dos principais desafios da actualidade.
Na sua opinião, muitos jovens artistas encontram-se fortemente influenciados por correntes musicais estrangeiras, situação que pode colocar em risco a autenticidade do património cultural cabo-verdiano.
Defende, igualmente, uma maior união entre os músicos, apontando a falta de solidariedade e cooperação como uma das principais dificuldades enfrentadas pelos profissionais do sector.
Aos jovens que pretendem seguir carreira na música, aconselha humildade, honestidade, perseverança e respeito pelos valores culturais do país.
Ao olhar para o percurso construído ao longo de várias décadas, João Cirilo afirma sentir orgulho pelos objectivos alcançados e pela forma como a sua música continua a ser acolhida pelo público.
Quanto ao legado que pretende deixar, diz desejar ser recordado como um patriota e defensor da cultura cabo-verdiana, alguém que dedicou a vida à valorização e preservação das tradições musicais do país.
JMV/HF
Inforpress/Fim
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