
São Filipe, 09 Set (Inforpress) - Familiares das vítimas do acidente rodoviário ocorrido no sábado, 05, na ilha do Fogo, que fez 25 mortos, dizem-se “destroçados e profundamente abalados” pela tragédia, que mergulhou toda a comunidade numa profunda dor e tristeza.
Esses testemunhos que partilham relatos marcados pela dor e tristeza, admitem que, daqui em diante, será muito difícil.
Em frente à casa de uma das vítimas mortais, na localidade de Velho Manuel, o dia amanheceu cinzento, marcado pelo nevoeiro e pelo silêncio, onde os familiares e amigos recebiam palavras de conforto e abraços de consolo de pessoas que se deslocavam ao local.
Em conversa com a Inforpress, João Semedo, sobrinho do condutor da viatura envolvida no acidente, contou que costumava participar no passeio, mas este ano esteve impossibilitado de estar presente.
Disse ter tomado conhecimento do acidente através de um amigo, mas sem perceber a dimensão da ocorrência, contudo, quando chegou ao local, deparou-se com a gravidade da situação e com a dimensão da tragédia.
“Foi muito duro, doloroso demais, havia muitos corpos espalhados por todo o lugar e muitas crianças que poderiam ter sido socorridas, mas, infelizmente, não tínhamos meios”, relatou.
Apesar das dificuldades de acesso, avançou que havia pessoas provenientes de várias comunidades, e que, com o apoio de todos, foi possível abrir um caminho e alcançar a zona onde se encontravam as vítimas.
O familiar afirmou que ninguém esperava que uma tragédia desta dimensão pudesse acontecer ao seu tio, uma vez que este fazia habitualmente aquele trajecto.
Descreveu-o como uma pessoa “muito querida e bondosa”, lembrando, em particular, o apoio que prestou a várias famílias da comunidade durante os anos 1990, quando as dificuldades de transporte eram maiores.
Considerado uma referência na comunidade, o condutor, segundo o sobrinho, deixará “uma grande ausência” entre os moradores, tendo em conta tudo o que fez ao longo da vida.
“Estamos todos de coração partido. Temos meninas e meninos órfãos de mãe e outros de pai, há mulheres que perderam filhos, outras perderam filhos e maridos, e há mães que perderam mais do que um filho. É muito doloroso”, lamentou.
Segundo explicou, a estrada foi construída há alguns anos como alternativa de acesso a Chã das Caldeiras, mas é estreita e com muitas curvas.
Questionou a ausência de barreiras de protecção nas estradas da ilha do Fogo, sobretudo em zonas mais acentuadas.
Na sua perspectiva, é necessário reforçar o investimento nas estradas da ilha, e considerou que as obras de desencravamento devem ser realizadas com condições adequadas de segurança.
João Semedo recordou ainda o orgulho que o tio representava para a comunidade e, particularmente, para as crianças, que o conheciam.
Por outro lado, Antónia Pereira perdeu seis membros da família no acidente, entre os quais cinco sobrinhos e um irmão, que participavam habitualmente neste passeio.
“Neste momento estamos muito tristes, porque é algo que não estávamos à espera”, afirmou, explicando que tem ainda um sobrinho internado, sobrevivente do acidente.
A tragédia, acrescentou, atingiu profundamente toda a comunidade, uma vez que muitas das vítimas eram familiares ou pessoas próximas.
Contou também que um dos seus filhos chegou a estar no autocarro, mas preferiu sair e entrar numa viatura Hiace, juntamente com alguns colegas.
Apesar de ter sobrevivido, a criança encontra-se traumatizada e, segundo a mãe, com alucinação.
“Neste momento está com traumas e está a ter alucinações”, afirmou, apelando às autoridades e às entidades competentes por apoio psicológico.
“Triste e muito abalada”, como exprimiu, não consegue perspectivar como serão os próximos dias.
“Não sabemos como vai ser a partir de agora. Não temos palavras para dizer o que estamos a sentir e o que estamos a passar”, finalizou.
O acidente com um autocarro ocorreu sábado, 05, na estrada entre Chã das Caldeiras e Campanas de Cima, tendo provocado 25 vítimas mortais e 14 feridos.
AV/AA
Inforpress/Fim
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