
*** Por Luís Carvalho, da Agência Inforpress ***
Cidade da Praia, 06 Jun (Inforpress) – A especialista em resíduos Neusa Brito defendeu hoje que o Governo deve declarar emergência ambiental relativamente ao aterro sanitário de Santiago, alertando para os riscos que o incêndio persistente representa para a saúde pública e para o ambiente.
Em entrevista à Inforpress, por telefone, a partir dos Estados Unidos de América, onde reside actualmente, a técnica, formada em Ciências Sanitárias e especialista em gestão de resíduos, afirmou que o incêndio que afecta o aterro há cerca de três meses exige uma “resposta urgente e coordenada” das autoridades nacionais, envolvendo igualmente o Ministério da Agricultura e Ambiente, Ministério da Saúde, a Protecção Civil e a Câmara Municipal da Praia.
“Não se pode fechar os olhos perante a questão da poluição do ar que se tem verificado nas zonas mais próximas do aterro. O Ministério do Ambiente e a ANAS [Agência Nacional de Águas e Saneamento] têm de tomar uma posição e promover uma coordenação estruturada entre as diversas entidades”, sustentou.
Segundo Neusa Brito, as comunidades de Palha Sé, São Francisco, Agostinho Alves e outras localidades vizinhas estão potencialmente expostas aos “efeitos nocivos” do fumo resultante da combustão dos resíduos.
“O fumo que se inala é tóxico e extremamente perigoso para a saúde pública”, afiançou Neusa Brito, emocionada em relação ao que está a acontecer, sublinhando que medidas urgentes devem ser tomadas para resolver esta situação.
A especialista revelou ter enviado um pedido formal ao presidente da Câmara Municipal da Praia, solicitando que fossem desencadeados os mecanismos necessários para a declaração de uma situação emergencial ambiental e operacional, de modo a permitir a mobilização de recursos técnicos e financeiros adequados para enfrentar o problema.
Contudo, esclareceu que a competência para declarar uma emergência ambiental cabe ao Ministério do Ambiente e à ANAS, entidades que, na sua opinião, devem assumir um papel mais activo na gestão da crise.
Neusa Brito explicou que as causas do incêndio estão associadas a falhas técnicas acumuladas ao longo dos anos na operação do aterro sanitário de Santiago, inaugurado em 2019.
Segundo a especialista, o projecto não contemplou a implementação de sistemas de drenagem de biogás, elemento essencial para garantir o funcionamento seguro de uma infraestrutura desta natureza.
“Quando os resíduos se decompõem, produzem líquidos e gases que precisam ser captados e tratados. No caso do aterro de Santiago, as drenagens de biogás nunca foram executadas e isso levou à acumulação de bolsas de gás no interior da massa de resíduos”, explicou.
Além da inexistência de drenagem de biogás, apontou igualmente problemas relacionados com a compactação dos resíduos, factores que, segundo disse, contribuíram para a actual situação.
Para mitigar o incêndio, defendeu a adopção de medidas técnicas específicas, entre as quais a limitação temporária da deposição de resíduos, a cobertura adequada das áreas afectadas com terra e a instalação urgente de drenos para aliviar a pressão dos gases acumulados.
“Não se deve tentar resolver o problema apenas com grandes quantidades de água, porque isso pode agravar a situação. É preciso uma abordagem técnica adequada”, alertou.
Embora considere que a quantidade de biogás produzida actualmente não justifica um investimento para a sua valorização energética, Neusa Brito defende que o gás deve ser captado e queimado de forma controlada, conforme as práticas internacionais recomendadas para a gestão de aterros sanitários.
A especialista manifestou ainda tristeza perante o actual estado da infra-estrutura, lembrando que esteve envolvida em todas as fases do projecto, desde a sua concepção e construção até aos primeiros momentos da sua gestão operacional.
“Tenho dedicado grande parte da minha vida profissional ao sector dos resíduos e sinto que estamos a regredir em matéria de gestão de resíduos em Cabo Verde”, lamentou.
Financiado pela União Europeia, o aterro sanitário de Santiago representou um investimento de cerca de meio milhão de contos.
Apesar dos problemas actuais, Neusa Brito acredita que ainda é possível preservar a infra-estrutura e garantir a sua continuidade através da construção de novas células e da adopção das medidas correctivas necessárias.
“Tomando as decisões certas e agindo rapidamente, acredito que ainda é possível continuarmos a ter o aterro sanitário de Santiago ao serviço do país”, concluiu.
LC/AA
Inforpress/Fim
Partilhar