
*** Por José Maria Varela, da Inforpress ***
Cidade da Praia, 08 Jun (Inforpress) – O músico Manel di Candinho afirmou à Inforpress que a morna pertence a todo o arquipélago, defendendo que cada ilha a interpreta de forma própria, mas partilha a mesma matriz cultural.
Manuel dos Santos Pereira, conhecido artisticamente como Manel di Candinho, considera que a morna é uma expressão cultural comum a todas as ilhas de Cabo Verde, convicção que esteve na base do álbum instrumental Rainha das Ilhas, lançado em 2022.
Em entrevista à Inforpress, o guitarrista, compositor, arranjador e produtor explicou que o projecto nasceu da intenção de homenagear compositores de todo o arquipélago e de demonstrar que a qualidade da interpretação da morna não depende da origem geográfica dos músicos.
Natural da localidade de Chaminé, no concelho de São Domingos, ilha de Santiago, Manel di Candinho iniciou o seu percurso musical na década de 1970, tendo desenvolvido desde cedo uma forte ligação à música através da Igreja Católica.
“A Igreja Católica foi a grande impulsionadora desse interesse, porque na freguesia onde nasci e cresci tocava-se violão nas cerimónias religiosas”, recorda.
Apesar de não pertencer a uma família de músicos, percorria vários quilómetros para assistir às missas e ouvir o violão tocado durante as celebrações religiosas. Mais tarde, ingressou no Seminário, onde aprendeu a tocar órgão e violão.
Entre as suas principais influências apontou os guitarristas Tazinho, Humbertona e Piuna, que conheceu através da rádio e que contribuíram para despertar o interesse pela guitarra solista.
A carreira profissional começou nos bailes populares, em 1978, experiência que considera determinante para o desenvolvimento da sua resistência e capacidade de adaptação.
“Comecei nos tempos dos bailes populares, tocando durante cerca de seis horas numa única noite. Foi uma experiência fantástica, que me ajudou a desenvolver um elevado sentido de resiliência”, reforçou.
Segundo recordou, as deslocações para actuações em diferentes localidades implicavam condições modestas, mas fortaleciam os laços de amizade e de companheirismo entre os músicos.
As primeiras composições surgiram a partir da observação da realidade social cabo-verdiana e do contacto directo com as comunidades, influência particularmente visível no LP Si Agu Mar Bira Grogo, gravado em 1983.
A emigração para Portugal, em 1982, representou uma mudança decisiva no seu percurso. Embora pretendesse seguir uma carreira ligada à gestão de empresas, a possibilidade de tocar com músicos que admirava levou-o a optar definitivamente pela música.
Reconheceu que os primeiros anos foram exigentes, devido à necessidade de conciliar a actividade artística com os estudos universitários, mas afirmou que a reputação conquistada como músico acabou por abrir portas profissionais em Portugal e, posteriormente, na Holanda, onde se fixou a partir de 1985.
Naquele país, dirigiu grupos musicais, leccionou Matemática numa escola geminada com Cabo Verde e aprofundou o contacto com diferentes culturas musicais.
O guitarrista destacou igualmente a importância de assistir a concertos de artistas como Mark Knopfler e Eric Clapton, experiências que contribuíram para alargar os seus horizontes artísticos.
Ao longo da carreira, trabalhou com algumas das principais referências da música cabo-verdiana, entre as quais Cesária Évora, Bana, Celina Pereira e Ildo Lobo.
Segundo afirmou, a convivência com estes artistas permitiu-lhe conhecer diferentes métodos de trabalho e contribuiu para a sua evolução enquanto músico e director musical.
Sobre Cesária Évora, considerou que desempenhou um papel determinante na projecção internacional da cultura cabo-verdiana, tornando-se a principal embaixadora da música nacional além-fronteiras.
A primeira visita a Cabo Verde após a emigração aconteceu em 1992, por ocasião do Festival da Baía das Gatas, como integrante de um grupo sediado na Holanda.
Mais tarde, em 2009, realizou o primeiro concerto no arquipélago com uma banda formada por músicos de diferentes origens, experiência que descreveu como marcante e decisiva para reforçar a vontade de desenvolver uma carreira a solo.
O regresso definitivo ao país ocorreu em 2011, a convite do então ministro da Cultura, para desempenhar funções de assessor e coordenador do Núcleo da Música.
Exerceu essas funções até 2016, tendo sido posteriormente eleito vereador da Cultura, Turismo e Património da Câmara Municipal de São Domingos.
Paralelamente, integrou o grupo Bulimundo até 2018, reconhecendo que as responsabilidades institucionais e o trabalho colectivo limitaram parcialmente a sua actividade individual.
A retoma plena da carreira a solo ocorreu apenas em 2022, com o lançamento de Rainha das Ilhas, trabalho que sintetiza a sua visão sobre a morna e reflecte as experiências acumuladas ao longo de décadas de contacto com diferentes culturas musicais.
Questionado sobre a evolução da música cabo-verdiana, afirmou que o país sempre esteve aberto a influências externas, desde a cúmbia, o merengue e o samba até ao zouk e ao soukous.
Considerou, contudo, que a modernização dos estilos deve ser acompanhada por exigência artística e qualidade musical.
Manel di Candinho reconheceu que os jovens músicos têm produzido trabalhos inovadores, embora entenda que, em alguns casos, se verifica um empobrecimento da lírica e da harmonia.
Ainda assim, destacou a diversidade do panorama musical cabo-verdiano, que inclui projectos de hip-hop com mensagens socialmente relevantes e artistas com forte capacidade interpretativa.
Quanto à preservação da tradição musical, mostrou-se optimista, defendendo que muitos jovens continuam ligados às raízes culturais do país, sobretudo através da educação recebida no seio familiar.
Defendeu igualmente que a fusão entre ritmos tradicionais e sonoridades contemporâneas pode enriquecer a música cabo-verdiana, desde que preserve a sua identidade e os seus elementos fundamentais.
Sobre o significado da música na sua vida, afirmou que sempre a encarou como algo que ultrapassa a dimensão profissional.
Segundo disse, a música contribui para a promoção da paz interior, da saúde mental e da solidariedade, tendo igualmente proporcionado a oportunidade de actuar em mais de 50 países.
Ao fazer o balanço da carreira, considerou-se privilegiado por ter concretizado grande parte dos objectivos que traçou desde jovem, entre os quais tocar com os seus ídolos, integrar bandas de apoio de grandes nomes da música cabo-verdiana e lançar um álbum instrumental a solo.
Apesar disso, garantiu que continua a sonhar e a trabalhar em novos projectos, adiantando que prepara uma agenda internacional e um novo álbum previsto para 2027, que deverá reflectir uma maior diversidade de influências musicais.
Aos jovens músicos cabo-verdianos que ambicionam uma carreira internacional, aconselhou a construção de uma identidade artística própria e defendeu que a projecção externa da música nacional depende da valorização dos elementos que a distinguem de outras culturas musicais.
JMV/CP
Inforpress/Fim
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