
Lisboa, 29 Out (Inforpress) – O escritor cabo-verdiano José Luís Hopffer C. Almada defendeu a independência das organizações culturais face aos partidos políticos e às instituições públicas, considerando a autonomia da sociedade civil essencial para garantir a liberdade de criação e intervenção cívica.
Em entrevista à Inforpress, no âmbito das celebrações do 40.º aniversário do Movimento Pró-Cultura e da apresentação do primeiro volume da trilogia dedicada a Amílcar Cabral, o escritor sublinhou a importância de as organizações culturais preservarem a sua autonomia.
“De há muito que me considero um intelectual independente de esquerda”, afirmou o escritor e ensaísta, ligado à fundação do Movimento Pró-Cultura, em 22 de Março de 1986, e da Associação dos Escritores Cabo-verdianos (AEC), em 1989.
Almada explicou que redigiu os estatutos da AEC e reviu os da Associação Caboverdeana (ACV), em Lisboa, procurando salvaguardar a independência dessas estruturas face aos partidos políticos, ao Governo, às instituições públicas, às organizações religiosas e sindicais.
Nascido a 09 de Dezembro de 1960, em Quelém/Pombal, no concelho de Santa Catarina, ilha de Santiago, cresceu na Assomada e frequentou o liceu na Cidade da Praia. Começou a escrever poesia em 1977, inicialmente com temas romântico-amorosos e metafísico-existencialistas.
A sua formação literária foi marcada pela poesia de intervenção política e social de autores cabo-verdianos como Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Onésimo Silveira, Mário Fonseca e Emanuel Braga Tavares, bem como pela literatura africana de língua portuguesa.
Entre as suas obras destacam-se “Assomada Nocturna” (1993), posteriormente reeditada numa versão ampliada, “Assomada Nocturna – Poema de Nzé di Sant’y Águ” (2005), “À Sombra do Sol” (1990), “Praianas – Revisitações do Tempo e da Cidade” (2009), “Sonhos Caminhantes” (2017) e “Deflagrações” (2021). Na sua criação, recorreu a diferentes nomes literários, entre os quais Nzé di Sant’y Águ e Ezeami di Sant’y Águ.
O Movimento Pró-Cultura surgiu na sequência do Núcleo Pró-Cultura, criado em finais de 1985, reunindo cerca de três dezenas de poetas, contistas, artistas plásticos e gráficos, músicos e outros agentes culturais.
Entre as iniciativas do movimento destacam-se o suplemento cultural “Voz di Letra”, publicado no jornal “Voz di Povo” entre 1986 e 1987, a revista “Fragmentos” e o programa radiofónico “Gentes, Ideias, Cultura”.
Ao avaliar o impacto da organização, Almada considerou que “a fundação do Movimento Pró-Cultura espoletou o surgimento de uma nova geração literária e cultural cabo-verdiana”.
A influência de Amílcar Cabral constitui outro eixo do seu percurso intelectual. “Foi através de Amílcar Cabral, isto é, pela vontade de aprofundar o seu pensamento, que cheguei ao marxismo”, afirmou.
O primeiro volume da trilogia, intitulado “Amílcar Cabral – O Maior Morto Imortal dos Povos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau”, tem apresentação anunciada para 07 de Novembro, na Associação Caboverdeana, em Lisboa, com a chancela da Rosa de Porcelana.
Sobre a identidade nacional, o escritor defende que “Cabo Verde é um Novo Mundo que nunca saiu de África”, sublinhando a importância da memória histórica, da valorização da língua cabo-verdiana e da autonomia cultural.
JMV/ZS
Inforpress/fim
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