
Cidade da Praia, 09 Set (Inforpress) – A Direcção da Televisão de Cabo Verde (TCV) contestou hoje a sua destituição pelo Conselho de Administração da RTC e apontou limitações técnicas, humanas e financeiras na cobertura do acidente ocorrido no Fogo.
Em comunicado enviado à redacção da Inforpress, a direcção considerou que a decisão do Conselho de Administração deve ser analisada à luz das condições em que a televisão pública tem exercido a sua missão, defendendo que cabe à administração assegurar os recursos necessários ao seu cumprimento.
Segundo o documento, a TCV enfrenta “limitações significativas” técnicos e humanos, não dispondo de recursos próprios suficientes para transmissões em directo de grandes eventos e recorrendo, por isso, a produtoras externas, revelando que várias propostas de novos programas permaneçam sem resposta ou financiamento do Conselho de Administração.
Sobre o acidente ocorrido na ilha do Fogo, a 05 de Setembro, a direcção manifestou pesar pelas vítimas e explicou que a delegação da RTC na ilha é composta por dois jornalistas e dois repórteres de imagem, estando um destes últimos de férias à data da tragédia, sendo que a RTC tinha contratado, há pouco mais de um mês, o antigo jornalista correspondente da RCV no Fogo, precisamente para reforçar a equipa local, acrescenta.
A equipa da sede responsável pelo Jornal da Noite de sábado, segundo a Direcção, tomou conhecimento do acidente apenas depois da emissão, quando ainda não dispunha de informações que permitissem avaliar a dimensão da tragédia, por isso, nas primeiras horas de domingo, a Direcção diz ter mobilizado os meios disponíveis e decidido reforçar a equipa no Fogo com um repórter de imagem e equipamento para a realização de directos.
O comunicado referiu que apesar das dificuldades técnicas e logísticas e da necessidade de alterar a grelha de programação, a TCV emitiu, pouco depois das 10:00 de domingo, uma especial informação sobre a situação no Fogo, tendo, posteriormente, o Jornal de Domingo dedicado cerca de duas horas à tragédia e, no dia 06, o Show da Manhã voltou a abordar o acidente, incluindo entrevistas em directo com membros do Governo.
A Direcção reconheceu que a resposta da estação “poderia ser melhor”, mas sustentou que esteve condicionada pelos meios disponíveis, defendendo que a capacidade de resposta de uma televisão pública não pode ser avaliada sem considerar as condições técnicas, humanas e financeiras existentes, justificando ainda que o imediatismo das redes sociais exige da TCV maior capacidade de resposta, mais meios e procedimentos de emergência adequados.
No comunicado, a Direcção abordou também a autonomia editorial, afirmando que sempre defendeu que as decisões sobre conteúdos devem respeitar a autonomia dos órgãos e as competências de cada estrutura, recordando os pronunciamentos da Autoridade Reguladora para a Comunicação Social (ARC) sobre alegadas interferências do Conselho de Administração nessa matéria e uma sentença do Tribunal Judicial que reconhece a relevância da autonomia editorial da TCV enquanto princípio constitucional e legal.
Neste contexto, a Direcção questiona a decisão de a responsabilizar e destituir na sequência da cobertura do acidente, defendendo que deveria ter sido realizado um levantamento das circunstâncias que condicionaram a resposta da empresa e avaliadas as responsabilidades das diferentes estruturas envolvidas.
A Direcção questionou igualmente a resposta das restantes estruturas da RTC, que integra, além da TCV, a RTCI, a RCV, a RCV+ e o núcleo multimédia, nomeadamente a capacidade das plataformas digitais da empresa para acompanhar acontecimentos de dimensão nacional.
Para a direcção, o debate não deve ser reduzido à actuação individual da directora, mas às condições criadas para o cumprimento da missão de serviço público da televisão, afirmando aceitar críticas “justas, fundamentadas e relacionadas com as competências” que lhe cabem, mas rejeitou que limitações estruturais, técnicas, humanas e financeiras sejam utilizadas para a responsabilizar exclusivamente.
“A TCV pertence aos cabo-verdianos”, afirmou, defendendo uma televisão pública com qualidade, independência editorial, capacidade técnica e condições adequadas para responder aos acontecimentos que marcam a vida do país, reafirmando o compromisso com o serviço público e defendeu a criação de condições de trabalho, o reforço dos meios técnicos e humanos e uma estratégia clara para a televisão pública.
No dia 05 de Setembro, aconteceu um acidente de viação, no trajecto Chã das Caldeiras/Campanas de Cima, no local conhecido como Baluarte na fronteira entre os municípios de São Filipe e Mosteiros e provocou 25 mortos e 14 feridos.
DR/HF
Inforpress/Fim
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