Boa Vista: Lela Brito, a paixão de um músico e o grito de alerta na salvaguarda da música tradicional

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Boa Vista: Lela Brito, a paixão de um músico e o grito  de alerta na salvaguarda da música tradicional
18/10/26 - 03:50 pm

Sal Rei, 18 Out (Inforpress) – No Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, o músico boa-vistense e autodidata Manuel Ramos Brito "Lela" partilha a sua trajetória, lamentando e alertando pela falta de espaço da música tradicional, a morna, no turismo e local.

Assinala-se hoje, 18 de Outubro, o Dia Nacional da Cultura e das Comunidades em Cabo Verde, data instituída em homenagem ao nascimento do poeta e patrono Eugénio Tavares. Na ilha da Boa Vista, a data é vivida pelo professor aposentado, Lela, entre a celebração da memória e a preocupação com o futuro da música tradicional.

"Um povo que não cuida da sua cultura é um povo amorfo, triste e sem identidade. Temos todos o dever de lutar pela defesa da nossa identidade, para que as próximas gerações possam compreender de onde vêm, através dos costumes e tradições dos seus ancestrais", defende o artista”, afirmou o musico, uma das vozes activas nessa reflexão, para quem a salvaguarda da identidade cultural é uma urgência nacional.

Nascido na Povoação Velha, Lela começou a dar os primeiros passos na música por volta dos 12 anos, entre curiosidade e às escondidas, aproveitando as ausências dos donos de instrumentos para dedilhar violões e requintas quando tinha oportunidade. Mais tarde, a sua caminhada como professor levou-o à ilha de São Nicolau, terra da sua mãe, onde conviveu e tocou com o lendário tocador Da Cruz e os seus filhos.

Autodidata na arte de tocar, o seu instrumento de preferência é a guitarra, mas também toca cavaquinho, viola de dez cordas, violino e teclado. Lela também se dedica à carpintaria para reparar e construir instrumentos.

Ao longo da sua carreira, o instrumentista foi um dos a fomentar a primeira direção da Associação de Músicos da Boa Vista, fundada por volta de 2002, e impulsionou iniciativas marcantes na ilha, como a Semana da Morna, o projeto "Amigos da Morna" no Festival da Praia da Cruz e o Palco Maria Bárbara na Povoação Velha.

Também idealizou também o projecto "Baxom", com ligação direta com a música, expressão antigamente usada para referir-se às pessoas que respondiam o cantor principal em contra voz, segundo o mesmo, é como o acto de fazer coro, criado para reunir artistas e promover a multiculturalidade através do "Concerto de Memória".

Apesar do seu vasto percurso, que inclui digressões internacionais em França, Manuel Ramos Brito expressa preocupação com a perda de espaço da música tradicional cabo-verdiana e da morna, Património Imaterial da Humanidade, perante à música estrangeira nos hotéis e restaurantes da ilha.

"Tenho conversado imensas vezes sobre a utilização da nossa música tradicional nos hotéis da Boa Vista, que é o maior mercado que podíamos explorar. Os visitantes vêm na expectativa de conhecer o que é local, mas a cota continua sendo muito baixa e prejudica os músicos locais", afirma Lela, criticando a falta de resposta dos operadores hoteleiros, das autoridades culturais e da própria Associação dos Músicos.

O músico lamenta ainda a "falta de cumprimento de compromissos" assumidos a nível governamental, relembrando que o anterior Ministro da Cultura teria prometido deslocar-se à Boa Vista para tentar resolver este problema, mas "não cumpriu com a promessa e as coisas continuam na mesma".

Outra consequência deste cenário desfavorável é a situação da sua iniciativa privada, a Escola de Música Armando Brito, criada em homenagem ao seu pai "Mane Guida", que era cantador, e funciona na sua residência, mas que tem baixa procura de alunos e desinteresse dos encarregados de educação, pelo que corre o risco de fechar.

"A minha escola de música tem-se traduzido numa expectativa frustrada. Fiz todo o sacrifício e avultados investimentos, focado sobretudo nas crianças, mas a afluência deixa muito a desejar. Em breve terei de tomar uma decisão sobre se vale a pena continuar ou fechar as portas", admite.

Neste Dia Nacional da Cultura, perante a "ausência de celebrações condignas" e o "fraco envolvimento institucional", Lela Brito deixa um apelo direto à sociedade e aos agentes culturais para que se sentem à mesa a discutir o sector.

"Apelo às autoridades locais e nacionais para que se aproximem mais dos defensores da cultura e apoiem as iniciativas para que nos sintamos estimulados. Se não houver este apoio, a nossa cultura vai-se perdendo diante de influências externas que tendem a sobrepor-se ao que é nosso", conclui.

MGL/CP

Inforpress/Fim

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