
Lisboa, 26 Abr (Inforpress) – A autoria da música e letra de “Sodade”, uma das canções cabo-verdianas mais tocadas, foi atribuída pelo tribunal a Armando Soares, mas 20 anos após esta decisão judicial, são os falsos autores que continuam a facturar, revela um livro.
Henrik Jönsson, um jornalista sueco a residir no Brasil, ficou fascinado com a canção quando a ouviu pela primeira vez em Lisboa, há mais de 30 anos.
Foi atrás da cantiga, mas também do sentimento de que Cesária Évora falava, e nesse percurso descobriu que a autoria desta famosa canção tinha sido roubada e que, apesar de uma decisão judicial de dezembro de 2006 reconhecer o verdadeiro autor da música e letra – o violinista Armando Soares -, este nunca recebeu qualquer compensação.
Estranhou o caso e sobretudo o pouco eco do mesmo na comunicação social.
No seu livro “Saudade” (editora Penguin), Jönsson conta que Armando Soares participava numa festa de despedida de conterrâneos que iam emigrar para São Tomé e Príncipe, e que decorreu na sua mercearia, na ilha de São Nicolau, quando compôs a “Sodade”.
Nessa madrugada de 11 de maio de 1954, Armando Soares “compôs a música que se tornaria a morna mais famosa de Cabo Verde”: “Quem mostra`bo ess caminho longe? Ess caminho pa São Tomé? Sodade, sodade. Sodade dessa nha terra São Nicolau”.
O grupo, incluindo os que embarcaram para São Tomé, continuou a cantarolar a morna, devido ao seu cativante refrão, e nos anos seguintes coube a quem ficou mantê-la viva. Amândio Cabral, um músico cabo-verdiano, gravou-a e registou-a como uma canção folclórica tradicional, mas quando Cesária a gravou a música foi registada em França como sendo da autoria de Amândio Cabral (letra) e Luis Morais (compositor).
Paulino Vieira, o músico e maestro que acompanhou Cesária na gravação de “Miss Perfumado”, disco que inclui o tema “Sodade”, denunciou o logro e o caso seguiu para tribunal, tendo o juiz determinado, em 2006, que a música e a letra de “Sodade” foram criadas por Armando Soares.
O jornalista viajou até à Praia Branca, na ilha de São Nicolau, Terra D´Sodade, conforme se lê num pórtico. Encontrou a mercearia de Armando Soares, que morreu poucos meses após a decisão judicial, e que é hoje a Casa da Morna Sodade, assim como muitos populares que lamentam que nem o verdadeiro autor, nem a família, tenham até hoje recebido o que é seu de direito.
Seguiu para o Mindelo, ilha de São Vicente, onde entrevistou os dois filhos que lhe confirmaram que, apesar de o tribunal ter confirmado que o seu pai é o legítimo autor da música, eles não receberam nem um escudo (moeda cabo-verdiana).
E seriam milhões de euros em ‘royalties’ retroativos, tal como aconteceu num outro caso recordado por Henrik Jönsson, o de Solomon Popoli Linda, autor e compositor sul-africano que escreveu a canção "Mbube", que deu origem ao sucesso mundial como "The Lion Sleeps Tonight", tema do filme "O Rei Leão".
O autor morreu na pobreza, mas 50 anos depois um jornalista denunciou o caso e as filhas de Solomon processaram a Disney, tendo recebido uma indemnização de 150 mil dólares (128 mil euros).
“Eu queria a mesma coisa para a “Sodade”. Foi um roubo, alguém fez coisas erradas, alguém tem de acertar”, disse, em entrevista à Lusa, considerando que os filhos de Armando Soares são “as vítimas” e que “eles deviam ganhar o dinheiro”.
E lamentou que José da Silva, manager de Cesária Évora e dono de uma editora discográfica que detém 12,5% dos direitos de “Sodade”, não queira resolver o assunto.
A música, que tocou mais de 62 milhões de vezes no Spotify, continua a render a José da Silva e a Amândio Cabral, que vive nos Estados Unidos.
Lusa/Fim
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