Associação defende coexistência e rejeita abate como solução para praga de macacos (c/vídeo)

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Associação defende coexistência e rejeita abate como solução para praga de macacos (c/vídeo)
25/04/26 - 03:00 am

Cidade da Praia, 25 Abr (Inforpress) – A Associação Santuário dos Macacos de Cabo Verde alertou hoje para a situação “crítica” da presença de macacos no país, marcada por maus-tratos, falta de legislação e perda de habitat, rejeitando o abate como solução.

Em declarações à Inforpress, o presidente da associação, Gricha Lepointe, afirmou que a organização, criada em 2021, surgiu para colmatar a ausência de mecanismos legais e institucionais de protecção destes animais.

Segundo o responsável, a iniciativa resultou da constatação de vários casos de maus-tratos, tanto em ambiente doméstico como em espaços públicos.

“Observámos situações de macacos mantidos em cativeiro sem condições mínimas, sem acesso a água e alimentação adequadas, além do seu uso como atracção turística, o que levanta preocupações éticas e de imagem do país”, explicou.

Gricha Lepointe denunciou ainda a caça para consumo de carne, prática que, disse, representa riscos para a saúde pública, devido à falta de controlo sanitário e enquadramento legal.

Contrariando a percepção de parte da população, o presidente da associação assegurou que o número de macacos não está a aumentar, mas sim em declínio.

“Com base em observações directas no terreno, estimamos que existam entre três mil e quatro mil macacos em Cabo Verde, mas não há dados oficiais. É fundamental que o Estado realize um estudo científico aprofundado”, defendeu.

De acordo com o responsável, a ideia de que há mais macacos resulta da sua crescente aproximação às zonas habitadas e agrícolas, motivada pela escassez de recursos naturais.

“Os animais estão a perder o seu habitat devido à expansão agrícola, à urbanização e também ao impacto das mudanças climáticas, o que os obriga a procurar alimento e água junto das comunidades”, explicou.

Esta proximidade tem contribuído para o aumento de conflitos com agricultores, sendo frequentemente apontada como justificação para o abate da espécie.

Para Gricha Lepointe, esta não é uma solução sustentável. “A resposta não pode ser apenas matar os animais; hoje são os macacos, amanhã podem ser outras espécies.”

Neste sentido, a associação propõe a implementação de uma estratégia baseada em dois eixos principais, nomeadamente a protecção e a conservação.

Explicou que a protecção passa pelo combate aos maus-tratos e pela criação de um quadro legal que assegure o bem-estar animal, enquanto a conservação envolve a gestão sustentável da população e a promoção da coexistência entre humanos e animais.

Uma das principais propostas é a criação de santuários e áreas protegidas. A associação já identificou Ribeira Grande de Santiago como um espaço com potencial para acolher um projecto-piloto, por reunir condições ecológicas, presença de macacos e potencial turístico.

Segundo explicou, o conceito de santuário difere de um espaço de cativeiro, sendo uma área aberta e protegida onde os animais podem viver em estado selvagem, com acompanhamento ecológico e científico.

Outra preocupação prende-se com a classificação dos macacos como espécie invasora. Segundo explicou, não existem estudos científicos que comprovem essa designação no contexto cabo-verdiano.

“Para classificar uma espécie como invasora, é necessário seguir protocolos internacionais e demonstrar impactos negativos claros sobre outras espécies. Até hoje, isso não foi feito em Cabo Verde”, afirmou.

O responsável acrescentou que os macacos estão presentes no arquipélago há cerca de 500 anos, o que, na sua opinião, reforça a necessidade de uma abordagem equilibrada e baseada em evidências científicas.

Apesar das propostas apresentadas, a associação enfrenta vários desafios, nomeadamente a falta de financiamento, a escassez de dados científicos e dificuldades no estabelecimento de parcerias com as autoridades públicas.

Outro obstáculo identificado é o reduzido nível de conhecimento da população sobre a fauna nacional, o que, segundo o presidente, limita o envolvimento da sociedade na protecção ambiental.

“É importante reforçar a educação ambiental, inclusive no sistema de ensino, para valorizar a fauna e a flora de Cabo Verde”, defendeu.

Por sua vez, Anilson Semedo, voluntário da associação, defendeu uma abordagem equilibrada entre a actividade humana e a preservação da fauna, sublinhando que os macacos integram o ecossistema cabo-verdiano há vários séculos.

Segundo avançou, o aumento da presença destes animais em zonas agrícolas está directamente ligado à escassez de alimentos no seu habitat natural.

“Se os macacos tiverem outras fontes de alimentação, deixam de invadir as plantações. Aproximam-se porque estão a lutar pela sobrevivência”, afirmou, indicando que a associação tem vindo a desenvolver acções de sensibilização junto das comunidades para promover uma convivência mais pacífica entre agricultores e animais.

Por outro lado, os voluntários realizam actividades de monitorização, disponibilização de água e alimentos em pontos estratégicos e observação do comportamento dos grupos, sobretudo na zona norte da Cidade Velha.

Estas acções, afirmou, visam reduzir a pressão sobre as áreas agrícolas e minimizar os conflitos.

Actualmente, a associação conta com oito membros e pretende alargar a sua base de apoio, incentivando a participação da sociedade civil na sua missão.

“Infelizmente, não existem dados sobre os macacos em Cabo Verde”, afirmou o presidente da associação.

Segundo explicou, esta ausência de informação científica dificulta a definição de políticas de conservação e impede uma gestão eficaz da espécie no país.

Para Gricha Lepointe, o futuro dos macacos em Cabo Verde depende de uma decisão estratégica do país.

“Temos de definir que relação queremos ter com a natureza. Ou deixamos os macacos desaparecer, ou organizamos uma coexistência inteligente e pacífica entre humanos e animais”, concluiu.

CG/AV/JMV

Inforpress/fim

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