
*** Por Margareth G. Lima, da Agência Inforpress ***
Sal Rei, 07 Set (Inforpress) – A tradicional Regata a Vela na Baía de Sal Rei ultrapassa a competição desportiva, afirmando-se como um marco cultural da Boa Vista, unindo gerações e géneros num nó marinheiro que celebra e preserva a identidade marítima da ilha.
Quem chega à praia Diante em dia de regata percebe logo que o espectáculo não se limita apenas ao mar. E não foi diferente este fim de semana com a regata da Semana do Mar e Encerramento da Época de Vela 2026, promovida pela Associação Regional de Botes à Vela Tradicional da Boa Vista (ARBVTBV), em parceria com a câmara municipal.
Muito antes do apito do arranque da competição, a orla da praia Diante transforma-se num ponto de encontro comunitário. Entre o colorido das tendas de comes e bebes, o ritmo da música, vendedoras ambulantes, risos e conversas, a comunidade une forças sob o sol abrasador, e várias pessoas entram na água para juntas ajudar as equipas, segurar os botes contra a força do vento e manter as embarcações alinhadas antes da partida.
Para Helton Lima, presidente da ARBVTBV, criada a partir de um grupo informal nascido em 2019, o principal desafio passou a ser a preservação desta herança cultural através da aproximação ao público e do envolvimento de parceiros para apoiar os proprietários nas despesas de manutenção das embarcações, tendo em conta que a regata está mais competitiva.
“Isto é uma paixão. Desde que entendo o meu nome, para mim o dia de Santa Isabel é regata. Se não houver, é como se não houvesse Santa Isabel”, afirmou, referindo-se à prova-rainha das regatas na ilha, indicando que todos aguardam o momento para empurrar os botes, uma emoção que não consegue explicar.
O dirigente destacou ainda que outro dos objectivos da associação é captar a juventude e criar uma escola de vela para assegurar a passagem de testemunho.
Aos 80 anos e com mais de 60 anos dedicados ao mar, o veterano João Marcos Évora, “Ti Mork”, é uma memória viva do tempo em que manusear a vela era uma questão de subsistência. Pescador reformado, mas que ainda todos os anos participa activamente na regata, recorda com emoção e alegria a primeira vez que teve um barco a vela ao seu comando, dizendo tratar-se de uma tradição de que gosta.
“Hoje vejo como algo positivo pessoas novas querendo dedicar-se ao bote a vela, porque nós (a sua geração) já estamos a acabar, pelo que fico muito feliz por ver os rapazes novos a darem continuidade”, declarou o veterano, ressaltando a importância de manter a actividade viva e afirmando ainda que vai continuar a praticar enquanto puder.
A continuação ganha força em jovens como Iansan Silva, de 22 anos. Iniciou-se nos desportos aquáticos e logo foi cativado pela vela tradicional, que hoje combina com o seu trabalho de técnico de manutenção. Há cerca de sete anos, mantém uma ligação profunda com o mar e os familiares.
“Não consigo descrever a sensação de paz ao estar naquele trajecto”, partilhou o jovem, destacando que a realização da regata pela associação no meio da baía trouxe mais dinamismo e visibilidade, já que toda a gente consegue ver e acompanhar mais de perto.
A presença feminina na competição é assinalada por Rita Fortes, a única mulher a integrar activamente as tripulações na ilha. Num meio dominado por homens, Rita Fortes participa nas regatas locais ao lado do marido. Está presente desde a preparação, na lixagem e pintura do bote, até às manobras no mar.
“É uma sensação maravilhosa, uma verdadeira terapia… Às vezes sinto medo, mas o meu marido dá-me confiança para aprender”, revelou Rita Fortes, que encorajou uma maior participação de mulheres e jovens na modalidade.
Nas areias da praia, o olhar de quem assiste reflecte o impacto desta vivência. Para a ex-emigrante Gilda Évora, que faz questão de chegar horas antes da largada oficial, a regata representa a essência viva da ilha e um ponto de reencontro com as origens.
“Mexe com aquilo que é nosso, com o nosso sentimento de pertença. É uma alegria ver a associação a fazer de tudo para não deixar morrer a nossa tradição”, referiu, afirmando que quem quer experimentar o que de facto é a Boa Vista e caracterizar a sua gente tem de ver a regata.
Entre a sabedoria dos mais velhos, o entusiasmo da juventude, os projectos de continuidade e sustentabilidade da associação e a força da comunidade à beira-mar, a vela tradicional na Boa Vista demonstra que a herança cultural da ilha continuará atada com a força de um nó firme.
MGL/CP
Inforpress/Fim
Partilhar