PERFIL: História de uma mulher de fibra que desafiou o tempo, o poder e o coração (c/áudio)

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PERFIL: História de uma mulher de fibra que desafiou o tempo, o poder e o coração (c/áudio)
20/08/26 - 02:00 am

***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 20 Ago (Inforpress) – Clara Marques, guardiã de memórias, professora de todos os anjos, afectos e destinos, faz o retrato de uma vida inteira aos 72 anos, do amor de quatro décadas à paixão que partilha ao redor da mesa.

De menina despachada em Rui Vaz à primeira mulher na liderança da Assembleia Municipal da Praia, Maria Clara Santos Marques Gomes Rodrigues atravessou impérios, revoluções e lutos com a mesma elegância de quem veste o seu melhor fato.

Nascida a 18 de Novembro de 1953 em Rui Vaz, uma zona de névoa e montanha no concelho de São Domingos, a vinte quilómetros da capital, a sua ligação ao lugar remonta aos anos 40, quando o avô paterno ali foi destacado para coordenar as plantações de eucaliptos do Estado, acompanhado pela filha mais velha, Mariazinha.

Foi em Rui Vaz que brotou o amor entre Mariazinha e Abílio Marques, de onde nasceu uma família de 12 filhos, um deles falecido precocemente, sendo que, entre os cinco rapazes e seis raparigas que cresceram, Clara, ou Clarinha, como é carinhosamente chamada, foi a sétima a chegar.

Da infância passada entre pessegueiros, pereiras e cravos, conserva na memória a casa colonial de muitas varandas, com padaria própria, cavalariça e até pavões a saudar quem passava, cenário de onde guarda uma das suas recordações mais deliciosas.

Dessas lembranças, conta que, sempre que o Governador colonial, Silveira Marques, visitava as alturas frescas de Rui Vaz, as crianças escondiam-se com medo da comitiva oficial, menos ela.

“Eles correram todos para trás da porta, mas eu fiquei ali de pé. O senhor Governador parou o carro e perguntou-me o nome. Respondi que era a Clara Marques. Ele disse: Eu também sou Silveira Marques. E eu, muito despachada, atirei: Então o senhor é meu tio?”, recorda entre risos.

O Governador, rendido ao destemor da menina, tirou do bolso uma nota vermelha de 100 escudos, gesto com que Clara reuniu a miudagem da primária e marchou directa à mercearia do pai para comprar açucrinhas para todos, revelando a coragem e a capacidade de descomplicar o mundo que sempre a acompanhariam.

Aos seis anos veio para o bairro da Fazenda, na Praia, onde a vocação para o ensino germinou cedo entre as acções da Cruz Vermelha e as cantigas aprendidas com as Irmãs de Caridade.

Esse caminho levou-a a integrar a primeiríssima turma da Variante em 1969 e, mais tarde, do Magistério Primário, destacando-se como aluna brilhante entre os dez melhores formados do país contemplados com uma viagem de estudo a Portugal.

A recompensa no regresso, contudo, teve o sabor do isolamento, com o inspector da época a destacar a jovem promissora para a isolada Calheta de São Miguel.

“Naquele tempo não havia transportes como agora. Era um autocarro por dia ou carrinhas mistas com animais. Quando cheguei à Calheta, com 18 anos, magrinha, fininha, a população veio toda para a rua ver a professora que veio da Praia. Olhavam para mim e diziam espantados: É aquela a professora?”, reviveu.

Em Calheta, onde orientava 18 escolas rurais, viveu o 25 de Abril de 1974 na mais profunda ausência de informação, até que, sem rádio ou telefone na aldeia, o padre Dinis lhe trouxe a notícia do golpe de Estado em Portugal.

Mais tarde, quando colegas organizaram uma caravana para libertar os presos políticos do Tarrafal, Clara declinou o convite porque o pai tinha falecido semanas antes, em Janeiro de 1975, e a jovem mestra, em luto rigoroso e profunda obediência familiar, preferiu ficar na retaguarda.

O percurso académico de Clara Marques é um monumento à persistência, somando duas licenciaturas (Língua Portuguesa e Ciências da Educação), um Mestrado em Avaliação da Educação entre Braga, Lisboa e Cabo Verde, uma Pós-graduação em Berlim (1990) e o arranque do doutoramento em História da Educação.

Como inspectora-geral da Educação, lugar que ocupou durante décadas, (com um parêntesis de nove anos onde serviu como directora de Gabinete no Ministério da Defesa Nacional), Clara revolucionou o conceito da inspecção escolar.

“Quando entrei na inspecção em 1985, as pessoas ainda tinham medo. O inspector no tempo colonial era visto como um polícia. Eu fui com a missão inversa: a de ajudar, orientar e formar. Se um professor não tinha plano de aula, eu ensinava-o a fazer, não lhe levantava um processo”, conta.

Nas suas viagens pelas ilhas, do Fogo à Brava, Clara Marques apreendia as palmatórias que ainda encontrava nas gavetas das salas de aula, justificando aos professores que não se tratava de um processo disciplinar, mas da urgência de abolir aquele castigo, recolhendo aquele instrumento com o sonho de, um dia, fundar o Museu da Educação.

E criou. Hoje, dezenas de professores pelo país fora recordam-na não como a carrasca do Ministério, mas como a amiga que, nas ilhas mais distantes, resolvia processos de reforma, organizava exéquias de docentes isolados e ensinava o “saber ser e o saber estar”.

Clara Marques casou-se aos 22 anos com o homem da sua vida, o magistrado Eduardo Rodrigues, numa união feliz de 39 anos de onde nasceram duas filhas com carreiras consolidadas, Ângela Rodrigues, hoje magistrada, e Cláudia Rodrigues, ex-deputada nacional e consultora do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).

A morte de Eduardo, há cerca de 12 anos, foi a única verdadeira mágoa que guarda no peito.

“Não tive mais nenhum romance. Não por falta de pretendentes, mas porque vivi uma história plena. As minhas filhas e os meus três netos são o meu grande núcleo”, manifestou.

Dona de uma rotina serena no Plateau, Clara vive sozinha por opção, mantendo hábitos simples, que se resume a uma volta matinal pelo Liceu, as notícias da rádio e da televisão e a novela da noite no quarto, mas é na cozinha que revela o seu refúgio mais apaixonado.

“O meu falecido marido dizia-me muitas vezes: Tu me prendeste pela barriga e pelo coração! Tenho uma gaveta com mais de 200 receitas, adoro ver mesas lindas”, recorda, mencionando que nas festas de família, a sua mesa parece posta para trinta pessoas.

Na Páscoa, por exemplo, a sua especialidade é a perna de carneiro coberta com uma crosta crocante de pão, alecrim, mel de abelha e salsa, acompanhada por quiches e empadas feitas de raiz, iguarias que Clara faz questão de partilhar com os vizinhos, jovens que lavam carros na rua e famílias da zona.

Mas a dedicação ao próximo não se ficou pelas portas de casa nem pelos encontros à mesa, até porque a aposentação da função pública em 2016 não significou o fim da sua vocação, vindo a abrir em 2020 o capítulo político da sua vida com o convite para encabeçar a lista e presidir à Assembleia Municipal da Praia.

Nesse novo capítulo, Clara Marques assumiu a missão com o rigor pedagógico de sempre, recusando um papel meramente figurativo à sombra do poder executivo da Câmara Municipal.

“As pessoas e a comunicação social não tinham noção do papel da Assembleia. O município tem dois órgãos de igual relevância: o deliberativo e o executivo. Exigi que a Assembleia tivesse a sua própria bandeira, o seu logótipo e a sua visibilidade nos actos oficiais. Não ficamos atrás do Presidente da Câmara… ficamos ao lado”, exteriorizou.

Nesse sentido, refere com satisfação ter criado um plano estratégico inédito, instituído atendimentos semanais aos munícipes às terças-feiras, promovido a revisão do regimento interno (com 20 anos de atraso) e criado formações para que os deputados municipais saibam ler orçamentos, debater leis e exercer a fiscalização com rigor técnico.

A amplitude da sua rede institucional levou a que, em 2023, o Governo da Polónia a convidasse para Consulesa Honorária da Polónia em Cabo Verde, tendo recentemente representado o país num congresso internacional de diplomatas em Varsóvia.

Aos que lhe perguntam até onde quer chegar na política, a resposta é desarmante e desprovida de ambições pessoais.

“Não quero mais cargo nenhum. Quero apenas cumprir o meu mandato com honestidade, servir os munícipes e deixar um legado institucional de integridade”, manifestou.

Para Clara Marques, a vida resume-se à capacidade de somar a sua fé católica, vivida como leitora e ministra extraordinária da Comunhão, a solidariedade diária, o escutismo que nunca deixou de professar e a profunda convicção de que educar é formar o ser humano por inteiro.

Mais do que as reformas que promoveu ou os cargos que ocupou, o legado que Clara Marques ambiciona deixar é o de uma vida pautada pela generosidade e pelo dever de cuidar, inspirando os mais jovens a acreditarem que educar, servir e acolher são as pontes mais seguras para transformar uma comunidade.

“Não tenho medo de praticamente nada. Tudo o que fiz na vida foi por amor a servir. Sozinha não impacto nada. É preciso fazer com os outros para transformar o mundo”, concluiu com a serenidade de quem olhou o mundo nos olhos e nunca recuou.

SC/ZS

Inforpress/Fim

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