
Redação, 07 Jun (Inforpress) - A responsabilidade futebolística de Cabo Verde cresce à medida da visibilidade decorrente da inédita participação no Mundial2026, reconhece o ex-internacional e capitão Marco Soares, convicto de que a seleção não estagnará no comodismo.
“As escolinhas de iniciação têm de dar melhores condições para os jogadores estarem mais preparados, porque agora há muitos mais olhos da Europa a chegar a Cabo Verde em busca de talentos. Se um país tão pequenino consegue estar num Campeonato do Mundo, tem de haver qualquer coisa diferente ali”, disse à agência Lusa o antigo médio, de 41 anos e que fez 53 jogos e três golos nos ‘tubarões azuis’, de 2006 a 2021.
Cabo Verde defrontará a campeã europeia Espanha, vencedora em 2010, o Uruguai, triunfante em 1930 e 1950, e a Arábia Saudita no Grupo H do Campeonato do Mundo, cuja 23.ª edição se realiza de 11 de junho a 19 de julho e integra pela primeira vez 48 seleções, incluindo Portugal, num total de 104 jogos, sob inédita organização tripartida entre Estados Unidos, México e Canadá.
“[O desafio] É querer sempre mais, não parar por aqui nem pensar que vamos ao Mundial e está tudo feito. Existem muitas gerações por vir e é obrigatório dar as melhores condições aos jovens, porque isso terá grande impacto a nível social. Há várias crianças que olhavam para a vida de uma forma e agora, se calhar, querem jogar pela seleção. O grande dilema é fazê-las continuar a acreditar que é possível um dia estar num Campeonato do Mundo”, ilustrou Marco Soares, antigo treinador-adjunto do Paredes, da Liga 3.
Cabo Verde vai tornar-se o 14.º país africano, e quarto lusófono, a competir no principal torneio internacional de seleções, entrando na história como o terceiro com menor população, atrás da Islândia, ausente nesta edição, e do também debutante Curaçau, e o segundo mais pequeno em área.
“Cabo Verde tem de extrair o máximo de uma montra como o Mundial. Os jogadores têm de se valorizar cada vez mais e de projetar o desporto cabo-verdiano, que tem crescido bastante nos últimos tempos”, salientou, vendo também novos desafios logísticos num país dependente do turismo.
A estreia no Campeonato do Mundo coroa um percurso ascensional dos ‘tubarões azuis’, que detetaram talentos na diáspora, sobretudo espalhados por Portugal, França ou Países Baixos, e cresceram em competitividade nos últimos anos, fazendo história a partir do alargamento de cinco para nove vagas diretas de qualificação em África, mais uma através do play-off.
“Durante os anos em que eu jogava, perdemos muitos atletas com raízes cabo-verdianas, porque não tínhamos a dimensão de outras seleções. O mais importante é que quem quiser representar Cabo Verde esteja de coração e com amor, pois só assim se consegue ter o melhor rendimento. Esse é o espírito que reina na seleção. É claro que isto vai abrir imensas portas. Não pode é ser para uso pessoal, mas sim coletivo”, advertiu.
Nomeando os capitães Ryan Mendes, Vozinha, Garry Rodrigues e Stopira, Marco Soares vê os seus antigos companheiros de seleção influentes no equilíbrio grupal e na transmissão da mística aos recém-internacionais.
“Por exemplo, Sidny Lopes Cabral, do Benfica, tem enorme potencial, está num patamar muito elevado e é o espelho do crescimento dos jogadores cabo-verdianos. Teve um crescimento brutal em três anos e agora vai disputar o Mundial e ser um dos rostos de Cabo Verde. Como ele, há mais atletas de qualidade a aparecer e isso é meio caminho andado para as coisas poderem acontecer. Nesse sentido, Cabo Verde está bem entregue”, frisou.
Nascido em Setúbal e com grande parte da formação cumprida no Barreirense, o antigo médio esteve em duas das duas quatro presenças dos ‘tubarões azuis’ na Taça das Nações Africanas (CAN) e diz haver mais e melhores recursos em comparação com a estreia em 2013, marcada pela “entrega e patriotismo de uma seleção com a qual o povo se identificou”.
“A grande diferença é que, neste momento, podemos retirar três jogadores da frente e meter outros com tanta ou mais qualidade. O leque de opções é muito fruto do crescimento da diáspora”, concluiu Marco Soares, que jogou por União de Leiria, Feirense ou Arouca, entre outros clubes portugueses.
Inforpress/Lusa/Fim
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