
***Por: Deila Varela, da Agência Inforpress***
Assomada, 23 Jun (Inforpress) – Entre casas vazias, uma escola sem alunos e cada vez menos moradores, Achada Leite assiste ao despovoamento gradual da comunidade, enquanto os residentes que permanecem aguardam por investimentos capazes de devolver vida à localidade.
Vista do alto, Achada Leite impressiona. A localidade estende-se sobre um vale recortado por uma ribeira que separa os dois lados da comunidade e conduz o olhar até ao mar.
Ao longo do leito da ribeira ainda se encontram coqueiros, mangueiras e outras árvores, além de canaviais, que testemunham um tempo em que a água era mais abundante e a agricultura sustentava muitas famílias.
Hoje, parte dessa vegetação parece ter perdido o brilho de outros tempos, algumas mangueiras produzem menos frutos, muitos coqueiros permanecem isolados e áreas que antes eram cultivadas deram lugar ao mato e às plantas invasoras.
A própria ribeira, que durante décadas ajudou a alimentar a vida da comunidade, parece carregar consigo as marcas da mudança, onde o silêncio é interrompido apenas pelo som vento que percorre o vale.
Das cerca de 50 a 60 casas existentes na localidade, apenas uma pequena parte continua habitada, e muitas permanecem fechadas, mas conservam sinais evidentes que dão impressão de que a partida aconteceu de forma repentina.
Em algumas casas, os móveis continuam arrumados, as cortinas permanecem penduradas nas janelas e alguns objectos ficaram como que exactamente onde os proprietários os deixaram.
As portas continuam fechadas à espera de um regresso que, para os moradores, dificilmente acontecerá.
Segundo os residentes, a maioria das famílias que deixou Achada Leite mudou-se para Ribeira da Barca, Assomada, Praia ou para o estrangeiro à procura por melhores condições de vida, oportunidades de trabalho e acesso a serviços básicos que acelerou a saída da população ao longo dos últimos anos.
Hoje, estima-se que apenas cerca de 30 a 40 pessoas vivam na localidade.
Entre elas está o agricultor António Tavares, que reside em Achada Leite há mais de três décadas, e continua a dedicar-se às hortas e à criação de animais, actividades que garantem o sustento das famílias da comunidade.
Segundo contou à Inforpress, a falta de água continua a ser um dos principais obstáculos ao desenvolvimento da localidade.
Explicou que existe um sistema de abastecimento, mas a disponibilidade de água continua insuficiente para responder às necessidades da agricultura, reduzindo a produção e dificultando a permanência de mais pessoas na comunidade.
Na sua opinião, se houvesse mais água e melhores condições de trabalho, menos famílias teriam abandonado Achada Leite.
Os efeitos da redução da população são visíveis na escola da localidade que, sem alunos suficientes para manter o funcionamento regular, o estabelecimento encontra-se encerrado e apresenta sinais de degradação.
As poucas crianças que ainda vivem na comunidade estudam em Charco ou Ribeira da Barca, enquanto os alunos do ensino secundário enfrentam deslocações ainda mais exigentes para frequentarem as aulas em Cruz Grande ou Assomada.
Para chegar aos transportes em Ribeira da Barca, percorrem longas distâncias, cerca de duas horas a pé antes mesmo de iniciarem a viagem para a escola.
O isolamento é agravado pela falta de sinal de televisão e rede telefónica, e os moradores afirmam ter dificuldades em acompanhar os acontecimentos do país e manter contacto regular com familiares que vivem noutras localidades ou no estrangeiro.
Diante dessas dificuldades, os poucos que permanecem em Achada Leite pensam em partir, mesmo que contra suas vontades.
António Tavares, afirma que pretende continuar na localidade, onde construiu a sua vida e onde continua a encontrar tranquilidade para trabalhar e viver, mas se as pessoas continuarem a sair, sente-se também obrigado a deixar a localidade.
No entanto, a esperança dos moradores está agora depositada nos projectos em curso, nomeadamente, a construção de dois miradouros e o projecto de asfaltagem da estrada que são vistos como investimentos capazes de atrair visitantes, dinamizar a economia local e criar condições para fixar mais pessoas.
A expectativa é reforçada pelo potencial turístico da zona, que acolhe o Pilon, uma das Sete Maravilhas de Cabo Verde, e a praia de Águas Belas, um dos locais muito procurados por visitantes que procuram contacto com a natureza.
Os moradores acreditam que, com melhores acessos, água suficiente e mais oportunidades económicas, Achada Leite poderá voltar a atrair famílias e recuperar parte da vida que perdeu ao longo dos anos.
Enquanto esse dia não chega, a comunidade continua suspensa entre a beleza do lugar e a incerteza do futuro, resistindo ao silêncio que se tornou presença constante nas ruas, nas casas vazias e na antiga escola que um dia foi o centro da vida da localidade.
DV/HF
Inforpress/Fim
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