
*** Por José Maria Varela, da Inforpress***
Lisboa, 05 Mai (Inforpress) – O poeta, editor e consultor Filinto Elísio defendeu hoje a centralidade da Cultura nas políticas públicas em Cabo Verde, apelando ao reforço do investimento, maior participação cidadã e valorização estratégica do sector no desenvolvimento nacional.
Em entrevista à Inforpress, a partir de Lisboa, no âmbito da campanha para as eleições legislativas de 17 de Maio, Filinto Elísio afirmou que os partidos políticos são “peças dorsais” da democracia constitucional, sobretudo em períodos eleitorais, defendendo, no entanto, uma maior abertura à sociedade civil e à participação cidadã.
Sem filiação partidária, disse posicionar-se como “simpatizante crítico” de uma esquerda moderna e democrática, defendendo uma abordagem mais societária por parte das forças políticas.
O escritor considerou que os agentes culturais devem ser “auscultados permanentemente” pelos decisores políticos, que, frisou, devem actuar com “sentido de Estado” e criar condições para a produção cultural, enquanto componente essencial da riqueza nacional.
Relativamente ao estado do sector, o antigo conselheiro do primeiro-ministro José Maria Neves afirmou que Cabo Verde possui uma “matriz cultural profunda” e uma produção vibrante, com forte expressão nas ilhas e na diáspora, contribuindo para a identidade e unidade nacional. Ainda assim, apontou limitações ao nível do desempenho governativo, sobretudo de natureza orçamental.
Entre os principais constrangimentos, destacou a “falta de visão alargada” sobre a Cultura, que, segundo disse, continua a não ser tratada como área de primeira necessidade, reflectindo-se em níveis de financiamento reduzidos, frequentemente abaixo dos 2% do Orçamento do Estado.
Essa realidade, acrescentou, tem condicionado políticas estruturantes, como a promoção da língua cabo-verdiana, apesar da sua consagração constitucional.
Quanto ao financiamento, considerou-o suficiente para programas mínimos, mas desajustado face ao papel estratégico que a Cultura deve desempenhar no desenvolvimento, na democracia e na unidade nacional.
Apontou ainda fragilidades na promoção do livro e da leitura, apesar de reconhecer melhorias recentes na Biblioteca Nacional.
Filinto Elísio defendeu um modelo de financiamento que abranja toda a cadeia de valor cultural, incluindo edição, distribuição e comercialização do livro, bem como o reforço das bibliotecas, o apoio aos autores e a tradução de obras cabo-verdianas.
Entre as medidas propostas, o poeta destacou a criação de um fundo autónomo de financiamento da Cultura e a implementação de concursos públicos para projectos culturais.
Alertou também para a precariedade no sector, referindo que muitos profissionais não têm na cultura a sua actividade principal e não estão plenamente integrados num sistema nacional estruturado.
Nesse sentido, apontou como prioridades a criação de um sistema nacional de cultura, o reforço do peso político da tutela e a institucionalização de mecanismos transparentes de financiamento.
Para o próximo ciclo governativo, defendeu uma reconfiguração das políticas culturais, tendo em conta a “complexidade da Nação Global cabo-verdiana”, marcada pela insularidade, diáspora e crioulidade afro-atlântica.
Propôs ainda a realização de um debate nacional sobre filosofia cultural e economia criativa, bem como o reforço de políticas para áreas como artes, património, museus, música e direitos autorais.
“Se plantado, dá. Acredito em novas sementeiras”, afirmou, defendendo uma estratégia que permita construir um “Cabo Verde cultural para todos”, promover a crioulidade e reforçar o ‘soft power’ do país.
Filinto Silva, natural da cidade da Praia, foi bibliotecário, professor, assessor, conselheiro e consultor em diferentes organizações e serviços, bem como em diversas entidades nacionais e estrangeiras.
Dos livros publicados, alistam-se os seguintes títulos: “Do lado de cá da rosa” (Poesia), Prato do dia (Crónicas), “O inferno do riso” (Poesia), “Das hespérides” (Miscelânea de Poesia, Prosa e Fotografias), “Das frutas serenadas” (Poesia), “Li cores e Ad vinhos” (Poesia), “Outros sais da beira mar” (Romance), “Me_Xendo no baú. Vasculhando o U” (Poesia e Pintura), “Zen Limites” (Poesia).
É membro-fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras, ocupando a cadeira/cátedra Mário Fonseca. Igualmente é membro-correspondente da Academia Cearense de Letras, da Academia de Artes e Letras do Nordeste e da Academia Imperatrizense de Letras e co-editor da Rosa de Porcelana Editora.
JMV/CP
Inforpress/fim
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