PERFIL/Manuel Faustino: O mestre das mentes que gosta de boas gargalhadas e na cozinha só sabe apreciar (c/áudio)

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PERFIL/Manuel Faustino: O mestre das mentes que gosta de boas gargalhadas e na cozinha só sabe apreciar (c/áudio)
19/07/26 - 06:00 am

***Por: Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 19 Jul (Inforpress) – Aos 78 anos, o histórico combatente pela liberdade, antigo ministro, psiquiatra, recusa-se a render-se ao descanso, entre consultas, caminhadas matinais ou causas sociais, descobre-se o homem desarmado que habita por trás da bata branca, longe do palanque político.

Se passar pela praia da Quebra-Canela bem cedo, por volta das 06:45, há uma forte probabilidade de avistar um homem que responde por Manuel Faustino, a desafiar as águas do Atlântico. 

O mergulho é tão rápido que os habitués da praia já o baptizaram “banho do Dr. Faustino”, um ritual de cinco minutos de imersão mágica para “quebrar a canela”, despertar e refrescar o corpo, recebendo aquele choque inicial da água fria que corta a preguiça e activa a circulação para começar o dia com energia.

Aos 78 anos, Manuel da Paixão Santos Faustino, nome de baptismo, psiquiatra conceituado, figura histórica da luta pela independência de Cabo Verde, ex-ministro da Saúde e da Educação, mantém a energia de quem ainda tem um mundo por desbravar. 

Mas quem é, afinal, este homem quando despe a bata e deixa para trás o palco da política activa?

Manuel Faustino nasceu em São Vicente, a 26 de Março de 1948, no “Inverno” mindelense, na antiga Rua de Papa Fria, Rua dos Descobrimentos, tendo vivido uma infância dividida entre o Monte, onde cresceu até aos 10 anos sob os cuidados atentos da irmã mais velha, após a emigração da mãe, e a Praça Nova, onde pontapeou a bola e selou amizades que duram até hoje.

Filho de um pai de Santo Antão, conhecido por “Joãozinho Central”, que começou como balconista e subiu a pulso na companhia inglesa Millers and Corries e de mãe de São Nicolau, Manuel Faustino cresceu numa família humilde, mas protegida das carências extremas. 

“Tenho recordações muito boas da minha infância, muita brincadeira, muita amizade, muitos colegas, jogava a bola… Lembro-me também de ver pessoas que vinham de São Tomé contratadas. Chegavam mais ou menos bem-vestidas, mas pouco tempo depois morriam, porque vinham muito depauperadas. Eu era criança e aquilo incomodava-me profundamente”, recorda.

Foi esse incómodo, temperado pela educação católica nos Salesianos, que serviu de adubo à sua profunda veia solidária, selando um destino que já parecia traçado no caminho de se tornar um cuidador de gentes.

A vocação para a medicina manifestou-se cedo e de forma caricata, com Manuel a crescer a ouvir contar que, nos seus choros inconsoláveis de menino, bastava a mãe pôr-lhe uma gravata e chamar-lhe “Doutor” para as lágrimas secarem de imediato.

Conta, entretanto, que a inspiração real veio do Dr. José Eduardo Fonseca, um cirurgião de mão-cheia, conforme nota, cujo porte e autoridade científica o fascinavam a ponto de, em 1965, com apenas 17 anos, uma idade invulgarmente jovem para a época, rumar à Universidade de Coimbra com o objectivo claro de ser cirurgião.

Mas a vida, tal como a mente humana, é cheia de desvios, e foi no terceiro ano do curso, ao cruzar-se com a psicologia, que a sua rota mudou drasticamente. 

O encontro com dois autores, Frantz Fanon, o psiquiatra da Martinica que dissecava os traumas da colonização, e Wilhelm Reich, revelou-se crucial, que ditou um novo destino em que a cirurgia perdia ali um bisturi, mas a psiquiatria ganhava uma das suas mentes mais brilhantes.

A chegada a Portugal foi também o palco de um dos maiores abalos da sua vida, um choque colonial brutal onde lhe disseram que era inferior.

“Eu considerava-me cheio de vida, de gás, de ambição. Chego lá e dizem-me que não sou nada, que sou negro e, como tal, inferior. Fui reduzido a quase zero”, contou, lembrando que foi este violento impacto com o racismo colonial que o empurrou definitivamente para a militância política.

Para Manuel Faustino, a política nunca foi um jogo de poder, mas sim um instrumento de combate às desigualdades, uma visão que, após rupturas políticas com o PAIGC, o conduziu ao exílio no Brasil durante uma década.

Curiosamente, a sua geografia familiar reflecte essas andanças, com a filha mais velha a nascer no Senegal, a caminho do exílio, e o filho mais novo em terras brasileiras, pouco antes do regresso a Cabo Verde. 

Sobre a distância geográfica dos partos, o médico faz a piada simpática de que, apesar de terem nascido em pontos opostos do mundo, são ambos filhos da mesma mãe, acrescentando com carinho que cada um já lhe garantiu um neto para adocicar a reforma que teima em não chegar.

Ao longo da vida, Manuel Faustino dividiu-se entre os consultórios e os gabinetes ministeriais da Saúde e da Educação. 

Quando questionado sobre qual dos papéis é o mais espinhoso, responde que, como psiquiatra, a sua esfera é restrita ao cuidado directo de quem precisa dele, já como ministro, lidava com milhares de pessoas cujas vidas dependiam de decisões políticas. 

“A dificuldade aí é infinitamente maior”, reflecte.

E como é a mente de quem passa a vida a descodificar a mente dos outros? À pergunta, o Dr. Manuel Faustino esquiva-se com a prudência de um sábio, explicando que o autoconhecimento é sempre relativo e que prefere identificar e conviver com as suas próprias fragilidades em vez de as negar. 

“Mas como é a minha mente no seu labirinto mais profundo? Ainda bem que não consigo chegar lá”, atira, entre risos.

Apesar da sua bonomia, a paciência de Manuel Faustino tem limites muito claros, confessando que o que mais detesta na vida são a prepotência e a ingratidão, embora nada o tire tanto do sério como o tentarem fazê-lo de doido.

“Quando sinto que alguém me quer tratar como bobo ou meter-me os dedos nos olhos… Até a minha mulher diz que eu gaguejo e fico aflito quando isso acontece”, ilustra, divertido.

Essa leitura atenta e carinhosa é fruto de uma cumplicidade rara, lapidada ao longo de um relacionamento que já soma 45 anos, quase meio século de partilha, que serve de porto de abrigo para quem passou a vida a cuidar da mente dos outros e dos destinos do país.

Sendo um homem das ciências da mente, defende também com unhas e dentes a livre expressão dos afectos e rejeita o velho tabu de que os homens não choram. 

Aliás, para o psiquiatra que chegou a participar num videoclipe do cantor Gá da Lomba precisamente a chorar, a tristeza e a mágoa são partes fundamentais do equilíbrio, pelo que chorar pode ser tão saudável quanto dar uma boa gargalhada.

Fora de horas, ao desvendar as suas habilidades culinárias, assume-se um “bom garfo” que não sabe cozinhar, preferindo comer de colher - e não sem colher, brinca, denunciando o seu excelente apetite.

O seu prato predilecto é a famosa lagosta suada que a sua madrinha preparava no seu restaurante em São Vicente, mas se espera ver o Dr. Faustino de avental à frente do fogão, desengane-se.

“Eu sei orientar, sei exigir, sei apreciar e sei brigar..., mas confesso que não sei cozinhar. Para além do ovo estrelado, cozido ou de uma água com açúcar, não vou além disso”, resume, divertido, com uma honestidade desarmante.

A páginas tantas, questionado se, na sua juventude e vida social preenchida, teve muitas namoradas, o Dr. Faustino sorri com malícia: “Não se pode dizer que não... muitas é exagero, mas algumas”, confessa.

Instado, então, a revelar de qual delas sente mais falta hoje em dia, o psiquiatra assume um tom confidencial, solta uma gargalhada cúmplice e remata com chave de ouro.

 “Vou dizer isto para ficar entre nós... Não sinto saudades de nenhuma, porque ainda hoje estou com a namorada mais importante da minha vida, a minha esposa. Uma união sólida que já lá vai com mais de 45 anos”, confessa, bem-disposto.

Quanto ao seu próprio legado para a história de Cabo Verde, recusa-se a assinar o balanço final da sua vida, e adia isso para daqui a dez anos, porque ainda, como diz, há muito por fazer.

“Eu estou com 78 anos. Pretendo falar do meu legado daqui a 10 anos, aos 88. Tenho muita coisa para fazer até lá. Se falar agora, ainda me acusam de mentir”, diz, entre gargalhadas.

E ficou assim combinado, daqui a uma década, no mesmo local, à essa hora de preferência logo após o “banho rápido” na Quebra-Canela, para registar a segunda parte desta fantástica viagem.

SC/HF

Inforpress/Fim

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