
Por, Keila Antunes, da Agência Inforpress
Cidade da Praia, 11 Abril (Inforpress) – Antes de se tornar estatística nas projecções demográficas ou pauta de políticas públicas, a maternidade afirma-se como experiência íntima, atravessada por desejos, incertezas e decisões que moldam o percurso de cada mulher.
Se para algumas a maternidade é um projecto assumido desde cedo, para outras é uma decisão adiada ou mesmo recusada.
Entre o desejo, o adiamento e a opção consciente de não ter filhos, emerge um retrato plural da mulher contemporânea, cada vez mais orientada pela autonomia económica, formação académica e redefinição de prioridades.
Mónica Correia contou à Inforpress que sempre desejou ser mãe, mas sublinhou que a decisão deve estar associada à responsabilidade e às condições concretas de vida.
“Ter um filho é uma grande responsabilidade. É preciso pensar no bem-estar da criança e nas condições que se pode oferecer”, afirmou.
Num percurso diferente, Patrícia Lopes, 28 anos, residente em Portugal, disse nunca ter sentido vontade de ser mãe.
Para ela, trata-se de uma escolha refletida.
“Cada pessoa tem o direito de decidir se quer ou não ser mãe”, declarou, defendendo que a não maternidade deve ser reconhecida como uma opção legítima.
Entre o desejo, o adiamento e a recusa, emerge um retrato plural da mulher contemporânea, menos condicionada por expectativas sociais rígidas e mais orientada por trajetórias individuais, autonomia económica e redefinição de prioridades.
Para uma leitura mais ampla do fenómeno demográfico, é pertinente uma abordagem comparativa entre Cabo Verde e a China.
Apesar das diferenças estruturais, ambos os países enfrentam desafios semelhantes ligados à natalidade, ao envelhecimento populacional e ao impacto destas dinâmicas nas políticas públicas e no desenvolvimento económico.
Na cidade da Praia, o embaixador da China em Cabo Verde, Zhang Yang, reforçou que cada país deve construir estratégias próprias para responder às dinâmicas demográficas, sublinhando a importância da protecção dos direitos das mulheres e da promoção da igualdade de género no desenvolvimento sustentável.
Contudo, aquilo que começa como escolha pessoal rapidamente ganha dimensão coletiva.
A redução das taxas de natalidade, o envelhecimento populacional e o impacto no mercado de trabalho transformaram decisões íntimas em matéria de política pública.
Por uma perspectiva mais nacional e política, a ministra da Justiça, Joana Rosa, defendeu que a “decisão de constituir família está diretamente ligada às condições estruturais oferecidas aos jovens”, nomeadamente emprego digno, estabilidade financeira e acesso à habitação.
Dados das Nações Unidas indicam que a taxa global de fecundidade caiu de cerca de cinco filhos por mulher na década de 1960 para aproximadamente 2,3 na actualidade.
A China enfrenta uma taxa estimada entre 1,0 e 1,2 filhos por mulher, enquanto em Cabo Verde o Instituto Nacional de Estatística aponta para uma redução gradual da fecundidade nas últimas décadas, associada ao aumento da escolaridade feminina e à maior participação no mercado de trabalho.
No centro desse debate está uma questão estrutural: nenhuma política demográfica será eficaz se ignorar a autonomia das mulheres e as condições reais em que vivem.
Incentivar a natalidade não pode significar pressionar escolhas, mas criar ambientes onde decidir ter, ou não ter, filhos não implique penalizações económicas, profissionais ou sociais.
Entre expectativas coletivas e projectos individuais, a maternidade passa a refletir a maturidade de uma sociedade, e quanto mais livres, protegidas e informadas forem as mulheres, mais legítimas serão as decisões que moldam o futuro demográfico.
O verdadeiro equilíbrio não está em números, mas na capacidade de harmonizar desenvolvimento, direitos e dignidade.
KA/AA
Inforpress/Fim
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