
Madrid, 08 Jun (Inforpress) - O Papa defendeu hoje que o "trágico drama migratório" deve agitar "a consciência das nações" e apelou à cooperação multilateral para lhe ser dada uma resposta "solidária e eficaz" que tenha no centro a dignidade humana.
"O trágico drama migratório interpela hoje a consciência das nações e o fundamento ético da ordem internacional. Homens, mulheres e crianças são obrigados, por circunstâncias muitas vezes dramáticas, a partir das suas comunidades e deixar atrás seres queridos, histórias e vínculos. Esta realidade extravasa qualquer leitura puramente demográfica: é uma questão eminentemente moral e jurídica", disse Leão XIV num discurso no parlamento de Espanha.
Para o Papa, "a situação dos migrantes e refugiados exige uma resposta que olhe para as pessoas, enfrente as causas que os obrigam a partir e vá mais além da mera gestão de fluxos".
As responsabilidades dos governos, defendeu, são garantir e oferecer "vias seguras e legais, um acolhimento com respeito e possibilidades reais de integração" e promover "o direito a permanecer na própria terra, a trabalhar para que ninguém tenha de abandonar a sua casa por falta de paz, segurança pu condições dignas de vida".
"Nenhuma nação pode enfrentar sozinha um desafio desta magnitude" e é "indispensável uma resposta coordenada, solidária e eficaz", no "quadro da uma cooperação regional e multilateral", defendeu Leão XIV.
O papa sublinhou que nos últimos anos, as rotas de imigração, sobretudo em direção à Europa, se tornaram "cada vez mais perigosas" e "é necessário fortalecer a prevenção, o resgate a assistência às vítimas".
Leão XIV iniciou no sábado uma visita a Espanha de uma semana que o vai levar, nos últimos dois dias, às Canárias, ilhas que lidam com o fenómeno da chegada de migrantes em embarcações precárias oriundas de África conhecidas como 'pateras' ou 'cayucos'.
Esta é a primeira viagem de um Papa a Espanha em 15 anos e esta foi a primeira vez que um líder da Igreja Católica discursou no Parlamento nacional, num país com um discurso político muito polarizado, como o próprio Leão XIV referiu no sábado, logo depois de aterrar em Madrid, e em que o terceiro maior grupo parlamentar, do Vox, de extrema-direita, mantém há meses um confronto com os bispos por causa da imigração.
Os bispos espanhóis têm sido alvo de críticas por parte dos dirigentes do Vox por estarem envolvidos no acolhimento dos migrantes que chegam às Canárias em 'pateras' e na integração destas pessoas e de outros estrangeiros e por terem reivindicado e apoiado publicamente a regularização extraordinária de imigrantes com que avançou recentemente o Governo liderado pelo socialista Pedro Sánchez.
Além disso, os bispos, incluindo a cúpula da Conferência Episcopal Espanhola, criticaram os acordos dos últimos meses do Vox com o Partido Popular (PP, direita) para coligações de governos regionais que integram um princípio de "prioridade nacional" nos acessos a serviços públicos e apoios sociais, por imposição da extrema-direita. O objetivo, assumido pelo Vox, é dar prioridade aos espanhóis em relação a imigrantes.
Só cinco deputados não ouviram hoje no parlamento o discurso do Papa - que é também o chefe de Estado do Vaticano, qualidade em que se dirigiu ao plenário espanhol - todos de partidos de esquerda (Podemos e Bloco Nacionalista Galego).
No discurso de hoje, o Papa recuperou também uma mensagem que transmitiu no sábado, logo à chegada a Madrid, quando se dirigiu pela primeira vez às máximas autoridades de Espanha, um momento em que aplaudiu a defesa do multilateralismo e do direito internacional e pediu à Europa para olhar para "a complexidade" como "uma bênção".
"Como lembra o lema da União Europeia, 'In varietate concordia', a unidade verdadeira não uniformiza, mas dá coesão na diversidade, fazendo das culturas, sensibilidades e tradições uma ocasião de enriquecimento mútuo", disse hoje aos deputados.
Falando no parlamento de um país onde o discurso político está muito polarizado e até agressivo, Leão XIV disse ainda que "a pluralidade política não deveria degenerar em ofensas permanentes ao adversário" e pediu "uma convivência madura", em que "as diferenças se deixam mitigar pela escuta".
Leão XIV foi aplaudido no final do discurso ao parlamento pela generalidade dos deputados, senadores e convidados durante sete minutos.
Dois grupos parlamentares de esquerda (Podemos e Bloco Nacionalista Galego, com cinco e um deputados, respetivamente), não participaram nesta sessão com o Papa, que além de líder da Igreja Católica, é o chefe de Estado do Vaticano, qualidade em que falou hoje ao parlamento.
O ministro da Justiça e Relação com as Cortes, Félix Bolaños, revelou hoje, numa entrevista à rádio pública RNE, que foi o Papa que propôs falar aos deputados e senadores no parlamento durante a visita a Espanha.
Também o Governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, esteve hoje na sessão no parlamento.
Inforpress/Lusa
Fim
Partilhar