
Cidade da Praia, 23 Jun (Inforpress) - Cabo Verde ambiciona liderar a área da biotecnologia através da preservação de microrganismos únicos, mas os investigadores locais alertam que enfrentam fortes barreiras devido à escassez de financiamento e de equipamentos especializados.
O alerta foi dado por Neidy Rodrigues, investigadora e docente em Ciências Biomédicas na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), durante o seminário intitulado “Da diversidade microbiana à soberania científica”, que decorre na cidade da Praia.
O evento, que teve início hoje no Campus do Palmarejo Grande, focou-se no “mundo invisível” das bactérias, fungos e parasitas, e serviu para advertir sobre a necessidade de o país investir urgentemente no sector visando proteger o seu património biológico e económico.
“Com uma localização geográfica estratégica, Cabo Verde possui condições ideais para o crescimento de uma biodiversidade microbiana singular que permanece inexplorada”, disse à imprensa a investigadora, defendendo que o país não deve limitar-se “ao papel de mero fornecedor de amostras para o exterior”.
No seu depoimento, Neidy Rodrigues apontou o financiamento como um dos principais desafios para o avanço da ciência nesta matéria, uma vez que a falta de verbas impede a aquisição de equipamentos de ponta e compromete a continuidade das investigações.
“Existem parcerias internacionais em negociação, como com Marrocos, mas a prioridade é garantir a soberania e o controle dos dados em solo cabo-verdiano", destacou, acrescentando que o estudo destes microrganismos tem aplicação prática e urgente no quotidiano do arquipélago.
Questionada sobre a utilidade prática destes estudos, a docente explicou que, no âmbito de um projecto que coordena sobre o cancro da próstata, as investigações associam casos da doença à prostatite (infecção bacteriana), o que influencia directamente a eficácia de tratamentos como a quimioterapia.
No sector da água e do saneamento, considerou as investigações essenciais para prevenir doenças de origem hídrica.
Alertou ainda que o consumo indiscriminado de antibióticos sem receita médica tem contaminado os esgotos e o ambiente, criando um ciclo perigoso de resistência bacteriana que exige monitorização contínua.
O seminário “Da diversidade microbiana à soberania científica” foi desenhado estrategicamente para estudantes do primeiro ano de Ciências Biológicas e para alunos do ensino secundário, com o objectivo de atrair novos talentos para o sector.
"Por estarem em fase de decisões académicas, este público é considerado ideal para suprir a necessidade de mais especialistas na área, uma urgência reforçada pelas lições da pandemia da covid-19”, concluiu.
O projecto coordenado pela investigadora prevê também a criação de uma plataforma digital para ensinar, mapear e catalogar os diferentes microrganismos existentes nas várias condições ambientais de Cabo Verde.
PC/CP
Inforpress/Fim
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