
Cidade da Praia, 27 Mar (Inforpress) - Mulheres cabo-verdianas de diferentes áreas de actividade definiram hoje a classe como “forte e resiliente”, apesar dos desafios estruturais ainda existentes, como a desigualdade de género e a VBG, que exigem respostas das autoridades e da sociedade civil.
Para assinalar o Dia da Mulher Cabo-verdiana, celebrado hoje, a Inforpress ouviu três mulheres de distintas faixas etárias e sectores profissionais, que partilharam percepções sobre conquistas, desafios e perspectivas futuras.
Ivaline Neves, 21 anos, estudante finalista do curso de Gestão de Empresas, considerou a data um momento de reflexão sobre os progressos alcançados e os caminhos ainda por percorrer.
Destacou o aumento da presença feminina no ensino superior, no mercado de trabalho e no empreendedorismo, na saúde, educação, gestão e tecnologia, ganhos “importantes” das mulheres cabo-verdianas, que significam que as mulheres podem lutar para "estar onde elas quiserem estar".
Apesar disso, apontou a persistência de desafios como desigualdade salarial, acesso limitado a cargos de liderança e a Violência Baseada no Género (VBG).
Defendeu maior educação, sobretudo dos homens, punições mais severas para agressores e reforço do apoio às vítimas de VBG, além de uma maior partilha de responsabilidades no seio familiar.
No dia a dia, a jovem reconheceu as dificuldades de conciliar estudos e trabalho, bem como constrangimentos financeiros que afectam muitas mulheres, sublinhando, contudo, avanços na participação feminina em diferentes sectores.
A sua força, disse, parte da sua mãe como principal fonte de inspiração, destacando valores como coragem, resiliência e dedicação.
Por sua vez, Débora Andrade, 30 anos, decoradora de eventos, residente em Achada Santo António, descreveu a mulher cabo-verdiana como sinónimo de “força e resistência”, realçando a importância da independência financeira para a realização pessoal e profissional.
Mãe de três filhos, admitiu que conciliar trabalho, casa e família continua a ser um desafio, devido à sobrecarga das tarefas domésticas.
Apontou ainda a desvalorização do trabalho feminino como “um dos principais obstáculos” no exercício da sua actividade por conta própria, bem como a pressão para redução de preços.
Ainda assim, reconheceu avanços no apoio ao empreendedorismo feminino, defendendo a redução da burocracia no acesso a incentivos.
Sobre a VBG, considerou que factores como dependência económica e responsabilidades familiares levam muitas mulheres a permanecer em relações abusivas, apelando ao reforço da autonomia financeira e do diálogo nas relações.
Já Ana Paula Rodrigues, 57 anos, empreendedora na área da cozinha, pastelaria e confeitaria, afirmou que as mulheres cabo-verdianas são “corajosas, batalhadoras e vencedoras”, sublinhando que conseguem superar desafios “com ou sem a ajuda de um homem”.
Mãe de seis filhas, realçou a importância da perseverança e da autoconfiança para alcançar o sucesso, incentivando as mulheres a reconhecerem o seu próprio valor e potencial.
No entanto, apontou dificuldades no dia a dia da sua actividade, como a gestão de clientes e a escassez de mão-de-obra, referindo também que ainda persistem privilégios masculinos na sociedade.
Relativamente à VBG, defendeu a necessidade de mudança de comportamento por parte dos homens, com base no respeito, amor e compreensão mútua.
Cabo Verde tem sido apontado como um dos países africanos com melhores indicadores em matéria de igualdade de género, apesar desta referência e avanços significativos na educação, no mercado de trabalho e na afirmação feminina, persistem ainda desafios estruturais que requerem acção contínua e articulada.
DG/ZS
Inforpress/Fim
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