Exclusão Digital: Idosos com baixa literacia perdem autonomia na transição acelerada do Estado e dos bancos

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Exclusão Digital: Idosos com baixa literacia perdem autonomia na transição acelerada do Estado e dos bancos
27/08/26 - 01:49 pm

Cidade da Praia, 27 Ago (Inforpress) - A transição acelerada do Estado e dos bancos em Cabo Verde para o digital deixa para trás idosos e cidadãos com baixa literacia informática, que enfrentam barreiras intransponíveis e perdem autonomia no acesso a serviços básicos.

Os números da transição digital em Cabo Verde revelam uma realidade a duas velocidades.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), embora a utilização global da Internet no país abranja cerca de 77% da população, alavancada sobretudo pelos jovens entre os 15 e os 34 anos - faixa na qual a taxa ultrapassa os 90% -, o cenário inverte-se significativamente à medida que se avança na pirâmide etária.

Os dados da mesma fonte indicam que na população com mais de 65 anos o acesso regular à rede desce para níveis residuais, sobretudo no meio rural, onde apenas 6,5% das famílias dispõem de conectividade fixa.

O relatório aponta ainda que esta limitação coincide com a redução de balcões bancários e postos de atendimento presencial em zonas periféricas e ilhas menos populosas, situação que força a população sénior a deslocações longas para obter apoio presencial.

A esta barreira de acesso soma-se o obstáculo da literacia financeira e digital, uma vez que, habituada a gerir a vida com dinheiro físico e a tradicional caderneta, grande parte da população sénior vê-se confrontada com o fecho de caixas físicas e com o encaminhamento forçado para plataformas como a ‘Vinti4 net’ ou o ‘mobile banking’.

Neste contexto, sem o domínio destas ferramentas, muitos reformados ficam dependentes da ajuda de terceiros até para as operações mais elementares, como consultar o saldo ou levantar a pensão.

Abordada pela Inforpress, Dona Maria de Fátima, de 72 anos, que traz guardada num pano dobrado ao fundo do saco uma caderneta bancária gasta, conta que na última semana, fez o trajecto de autocarro até à cidade para tentar saber se a sua pensão tinha sido depositada.

À porta do banco, onde antes encontrava um balcão com atendimento presencial, deparou-se com uma máquina de ecrã tátil e uma mensagem em letras miúdas.

“Dizem para fazer o agendamento no ‘site’, mas eu nem tenho telemóvel. Com essas modernidades a gente sente que está incomodando só por precisar de falar com uma pessoa de carne e osso”, desabafa, com os olhos fixos na porta de vidro que agora parece mais inalcançável do que nunca.

A história de Dona Maria reflecte o drama silencioso enfrentado por milhares de idosos e cidadãos com baixa literacia digital.

Num momento em que o Estado e o sistema financeiro aceleram a transição para plataformas online, serviços básicos, como emitir uma certidão, consultar um processo de reforma, ou simplesmente movimentar o próprio dinheiro, tornaram-se uma autêntica corrida de obstáculos.

Segundo os relatos de quem não cresceu a manusear computadores ou telemóveis, a transição traduziu-se em exclusão em vez de simplificação, uma vez que a burocracia antes resolvida com uma senha em papel passou a exigir chaves de acesso, códigos SMS de validação e formulários virtuais complexos.

“Antigamente, se eu tinha uma dúvida sobre a minha reforma, ia ao balcão e saía de lá com o assunto tratado. Agora, mandam-me ler um código. O que é um código não sei quê… para quem mal sabe ler as letras normais? Este cenário afecta a dignidade e a autonomia dos mais velhos”, questiona Sr. António, 78 anos, reformado há 13 anos.

Especialistas e familiares alertam ainda que a dependência de terceiros para realizar tarefas simples expõe os idosos a riscos de fraude e à perda de privacidade, uma vez que se veem forçados a partilhar senhas bancárias e dados pessoais com terceiros para pagar contas básicas de água ou luz.

Na mesma linha, Dona Albertina, de 70 anos, nota que as plataformas não foram desenhadas para a sua faixa etária, referindo que “um erro de digitação bloqueia a conta e uma palavra-passe esquecida exige um processo de recuperação impossível para quem nem sequer tem correio eletrónico”.

Sem medidas de mitigação que garantam o acesso assistido e a simplificação dos processos virtuais, a digitalização dos serviços públicos e bancários arrisca-se a transformar a autonomia da população mais idosa numa dependência diária de terceiros.

SC/CP

Inforpress/Fim

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