Estudo inédito revela que doença de Parkinson domina distúrbios do movimento em Cabo Verde

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Estudo inédito revela que doença de Parkinson domina distúrbios do movimento em Cabo Verde
10/03/26 - 12:56 pm

Cidade da Praia, 10 Mar (Inforpress) – Um estudo multicêntrico pioneiro, realizado entre Julho e Dezembro de 2024, traçou o primeiro perfil epidemiológico dos distúrbios do movimento (DM) em Cabo Verde, advertindo que 70% dos doentes enfrentam graves barreiras no acesso a medicamentos.

Os resultados, segundo o estudo publicado na revista internacional de Saúde Pública, a 02 de Março de 2026 e efectuado por Antónia Fortes, Cláudia Pires, Filipe Monteiro e Leida Tolentino, revelam que a doença de Parkinson é a patologia mais expressiva deste grupo no arquipélago, representando 79 por cento (%) dos casos diagnosticados. 

A investigação nacional aponta para uma prevalência padronizada de 17 casos por 100 mil habitantes.

O estudo, intitulado “Distúrbios do movimento em Cabo Verde: epidemiologia, barreiras de acesso e implicações para a saúde pública em uma população insular em envelhecimento”, indica ainda que o risco aumenta significativamente com a idade, atingindo os 117 casos por 100 mil em pessoas com mais de 60 anos, sendo os homens os mais afectados (19 por 100 mil face à média nacional).

O estudo indica que o risco aumenta, significativamente, com a idade, atingindo os 117 casos por 100 mil em pessoas com mais de 60 anos, sendo os homens os mais afectados (19 por 100 mil face à média nacional).

No entanto, apesar de 78% dos doentes estarem sob tratamento farmacológico, o estudo expõe falhas críticas no sistema de saúde, tendo 70% dos pacientes relatado dificuldades moderadas ou graves para conseguir medicação.

As barreiras incluem, acrescenta o estudo, o elevado custo dos tratamentos, processos burocráticos lentos na importação de fármacos, ausência de medicamentos modernos no formulário nacional, centralização dos serviços de neurologia na ilha de Santiago e impacto na qualidade de vida.

Para além dos sintomas motores, o impacto social é profundo, sendo que 51% dos participantes afirmaram que a doença tem um impacto significativo nas suas vidas, afectando a independência e a participação social.

O estudo destaca ainda que o acesso a terapias de apoio, como a fisioterapia e terapia da fala, é “fragmentado e geograficamente inacessível” para quem vive fora da capital.

Os autores do estudo sublinham que, embora Cabo Verde tenha uma das maiores densidades de médicos da África Subsaariana, a falta de neurologistas especializados e de protocolos estruturados deixa os doentes vulneráveis o que deve ser levado em consideração na urgência de políticas públicas neste sector.

A conclusão é clara e recomenda a descentralização dos cuidados, com urgência, integrar os distúrbios neurológicos nos planos nacionais de combate a doenças não transmissíveis e garantir que o diagnóstico precoce e o tratamento cheguem de forma equitativa a todas as ilhas do arquipélago.

Este primeiro estudo epidemiológico a nível nacional sobre doenças neurológicas em Cabo Verde expõe lacunas críticas nos sistemas de saúde pública e mental no enfrentamento de doenças neurológicas crónicas numa pequena ilha de baixa e média renda. 

Os resultados destacam a crescente vulnerabilidade demográfica, as profundas barreiras de acesso e as desigualdades na prestação de cuidados.

O estudo foi elaborado por Leida Tolentino, doutoranda e professora adjunto da Faculdade Municipal de Santa Bárbara nos Estados Unidos, Filipe Monteiro, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Portugal, Cláudia Maria Brito, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Portugal, e Antónia Fortes, do Departamento de Neurologia do Hospital Universitário Cabo Verde, com apoio financeiro do Instituto Nacional de Segurança Social (INPS).

PC/HF

Inforpress/Fim

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