
***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***
Cidade da Praia, 31 Jul (Inforpress) – Victor Borges, para lá do governante durante oito anos, guarda a memória viva de uma infância livre em Assomada, o gosto inegociável pela dança e a independência de quem sempre preferiu pensar pela própria cabeça.
Esta é a história do homem que encarou a política por compromisso, mas nunca deixou de ter na leitura, no ritmo de Miriam Makeba e na reserva da sua intimidade, o seu verdadeiro porto de abrigo.
Não gosta de rótulos nos formulários oficiais, recusa o fetichismo da gravata nas lógicas de poder e demorou décadas até saber qual era o seu signo zodiacal.
Do rapaz que trocava a missa de domingo pelos policiais clandestinos ao homem que diz ter ficado “armadilhado” no Ministério por aceitarem todas as suas condições, Victor Borges abre o livro das suas memórias, entre o trabalho na loja da mãe, a paixão pelo futebol de rua e a defesa intransigente da sua própria liberdade.
De conversa fácil, tom sereno e um humor refinado, desponta nesta entrevista intimista sem as amarras dos cargos que ocupou, traçando o seu percurso com a franqueza de quem viveu muito, mas recusa categoricamente deixar que o Estado, ou a astrologia, dite quem ele é.
Nascido a 24 de Maio de 1955, em Assomada, Victor Manuel Barbosa Borges cresceu num Cabo Verde onde ter acesso ao ensino secundário era um privilégio raro que escancarava as assimetrias da época.
Para dar continuidade aos estudos após a admissão, teve de deixar a terra natal e seguir para São Vicente como aluno interno da Escola Salesiana.
“A minha infância é Assomada, a minha adolescência dividiu-se entre São Vicente e a Praia. Quando observo as crianças de hoje, percebo que eu era muito mais livre. Tinha um campo aberto para explorar”, manifestou.
Entre a disciplina rígida da época, que hoje considera excessiva, embora veja o presente no extremo oposto do “tudo permitir”, o jovem Victor dividia o tempo entre o futebol de rua, as brincadeiras e o trabalho na loja de comércio da mãe durante as férias.
Uma experiência que recorda sem qualquer vitimização, considerando que era socialização, um momento necessário de aprendizagem.
Filho de pai emigrante e mãe comerciante, cresceu num ambiente que define como de classe média, estruturado na base da poupança e do sacrifício.
Embalado nas suas memórias, conta que foi no silêncio da leitura que encontrou o seu grande porto de abrigo, lembrando-se que, na Escola Salesiana, a missa dominical era obrigatória, mas a de domingo à tarde dava-lhe uma alternativa, pois, quem não quisesse ir à igreja podia ficar na sala de estudo a ler.
Afastado da fé tradicional desde cedo, devorou policiais e romances de cordel para escapar às orações.
A consciência crítica, no entanto, começou a desenhar-se mais tarde, na Praia, a partir do 5.º ano, onde o contacto com prisões efectuadas pela PIDE a pessoas próximas o fez perceber que a opressão colonial não era normal, passando os livros clandestinos escondidos entre as toalhas da mãe a fazer parte da sua rotina.
Curiosamente, a confirmação dessa inquietação veio de dentro do próprio sistema de ensino, quando nas aulas de Geografia e na controversa disciplina de Organização Política e Administrativa da Nação, desenhada para doutrinar no Estado Novo, Victor aprendeu a ler nas entrelinhas.
“Eu tenho essa tendência de ver o contrário. O que estava no livro despertou-me para captar o implícito sobre o que era a democracia e o liberalismo. Foi nessa altura que compreendi verdadeiramente o colonialismo e o regime do Apartheid”, declarou.
Continuando a divagar, conta que na pequena biblioteca do Centro de Documentação na Praia e nas páginas em francês de revistas como a Paris Match, o jovem de 17 anos descobriu o mundo ao ver a foto de Gaddafi, ler sobre a independência dos países africanos e formar o seu pensamento.
Mas, com uma independência vincada, resistiu sempre a enquadrar-se em lógicas partidárias, afirmando que “intuí que devia ficar comigo mesmo”.
Longe da política e dos livros, a juventude de Victor Borges teve a cor e o som dos bailes de antigamente, convívios sociais onde todas as gerações dançavam no mesmo salão, fruto da influência musical dos discos que o pai imigrante trazia.
Na vitrola de casa, ecoava a Voz de Cabo Verde, Arlinda Souza, Frank Mimita e “uma forte selecção de ritmos” da América Central e do Sul, tendo sido nessa altura que se apaixonou por Miriam Makeba e pelo contagiante Pata Pata.
Apesar do perfil analítico, Victor nunca escondeu o gosto por dançar e, nos anos 80, quando exercia o cargo de director do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação, uma colega de trabalho ficou estupefacta ao cruzá-lo numa festa.
“Ela veio ter comigo e disse: estou estupefacta. Para mim o senhor era só projecção, dados estatísticos e políticas de educação… Mas não. Eu sou de divertimentos, sou de dançar”, revelou entre risos.
O tempo passa e os anos correm, hoje com os joelhos a pedirem tréguas para o futebol ou longas caminhadas, encontra na natação a sua válvula de escape, ao mesmo tempo que deixou as noites de dança e as boates essencialmente por um motivo simples, que é a sua batalha campal contra o fumo do tabaco.
“Na minha casa e onde eu trabalho, ninguém fuma”, atira com bom humor, recordando os tempos em que recusava dar boleia a quem acendia um cigarro no carro.
Quando o assunto é a sua formação e vida pessoal, Victor adota uma postura singular de recato.
Formou-se em Psicologia e Ciências da Educação em França, num tempo em que se permitiam duplas matrículas, aproveitando para cursar matérias “à esquerda e à direita” apenas pela curiosidade de entender o mundo sem espartilhos disciplinares.
Apesar da formação, evita intitular-se psicólogo, aliás, a sua aversão a burocracias e à devassa da intimidade é tal que, ao preencher formulários oficiais, deixa frequentemente um traço nos campos de “Estado Civil” e “Profissão”.
“Nunca reconheci ao Estado a autoridade para se intrometer nos meus amores. Não é trabalho do Estado saber da minha vida privada”, remata o antigo ministro, ao mesmo tempo que, fiel à sua reserva, encara a obsessão moderna por expor a vida íntima como uma “nova imoralidade”.
Sem rodeios ou exibicionismos, resume o seu percurso afectivo de forma simples, explicando que vive em família há quase três décadas no seu segundo relacionamento, tem três filhos, duas filhas da primeira união e um filho da actual, e uma postura de lealdade extrema à palavra dada.
De resto, no que toca ao signo zodiacal, foi a filha mais velha quem lhe revelou ser de Gémeos, com o próprio a admitir que vê as respostas por curiosidade, mas achando-as tão genéricas que qualquer um cabe em qualquer uma.
Sabendo cozinhar para o quotidiano e sem saudosismos sobre namoradas ou amores do passado, Victor Borges prefere olhar para a vida com pragmatismo.
Antigo titular da pasta dos Negócios Estrangeiros e da Educação, conta que a chegada a ministro não derivou de uma ambição política alimentada durante anos, mas sim de uma estratégia que correu ao contrário, pois, após recusar vários convites para integrar o Governo, aceitou reunir-se com o então chefe do Governo para encerrar o assunto, apresentando uma lista de dez a 12 condições inflexíveis, onde se incluía até a recusa formal em usar gravata no dia a dia.
“Na minha cabeça, as condições eram inaceitáveis para as lógicas partidárias. Pensei que ele diria que assim não dava. Mas ele aceitou tudo. Fiquei armadilhado pela minha própria estratégia de dizer não”, narra, referindo que o compromisso, que deveria durar no máximo dois anos, estendeu-se por quase oito.
Uma experiência que encarou com responsabilidade, mas que resultou em pesados sacrifícios pessoais, familiares e financeiros, e hoje, tecnicamente reformado, garante sem hesitação que não voltaria à política activa.
“Luto todos os dias para não me arrepender, mas voltar nunca mais. Perdi financeiramente e dei um tempo da minha vida numa altura em que podia ter feito outras coisas”, desabafou.
Sem espaço para mágoas ou melancolias sobre caminhos desencontrados, Victor Borges guia-se por uma filosofia prática, sendo movido por um compromisso profundo com a justiça social, que considera estar ameaçada em Cabo Verde pelo fosso crescente entre os que têm muito e os que pouco possuem, e por uma vontade simples de viver em paz.
Não busca a “felicidade” de capa de revista nem soluções mágicas para a existência, antes pelo contrário, enfrenta os dias com positivismo, anedotas, conversas boas e a tranquilidade de quem cumpriu os seus deveres sem perder a essência.
“Levo a vida sem afrontar a Deus pedindo-lhe o que não me pode dar. Sem que eu tenha pedido particularmente, a vida já me deu muito. Agora? Apenas viver com paz, serenidade e tranquilidade”, realçou.
Quanto ao legado que deixa, recusa solenidades, mais do que os cargos que ocupou, prefere que a sua marca resida na lealdade à palavra dada e num contributo discreto para uma sociedade mais justa.
SC/AA
Inforpress/Fim
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