
Cidade da Praia, 21 Jul (Inforpress) — A formação médica em Cabo Verde enfrenta o desafio de reter os seus talentos profissionais após a conclusão dos estudos, uma vez que a grande maioria dos estudantes opta por emigrar, atraída por melhores condições de trabalho e especialização.
Em entrevista exclusiva à Inforpress, Antonieta Soares, coordenadora do mestrado integrado em Medicina no país, começou por alertar que a taxa de fixação dos recém-licenciados em território nacional é de apenas 30 por cento (%) por ano.
“O programa acolhe anualmente 25 novos alunos. Apesar de percalços como candidaturas para o exterior, desistências ou retenções no primeiro ano, as turmas estabilizam-se habitualmente entre os 20 e os 22 estudantes”, disse, realçando o sucesso do curso que, anualmente, atinge uma taxa de aprovação final entre os 85% e os 90%.
Questionada sobre o motivo que faz com que os finalistas emigrem, particularmente para Portugal, onde podem encontrar trabalho, a coordenadora do mestrado integrado em Medicina apontou a falta de coordenação entre as entidades formadoras e o Ministério da Saúde como o principal entrave à fixação dos médicos.
Por ser um curso totalmente financiado pelo Estado cabo-verdiano, a responsável defende que a Administração Pública deveria ter maior capacidade de absorção, apesar de o Ministério da Saúde não conseguir enquadrar, administrativamente, todos os licenciados devido à falta de verbas e de estruturação de recursos humanos.
“O sistema falhou ao não cruzar o fluxo anual de entradas e saídas de estudantes, incluindo os 10 a 15 que partem para estudar noutras paragens, com as vagas de emprego público disponíveis”, acrescentou.
Neste processo, segundo Antonieta Soares, o objectivo do corpo docente é encaminhar os 25 alunos anuais para a Universidade de Coimbra, em Portugal, mas a realidade prática revelou-se inconformável de acordo com as regras, fixando-se o envio regular numa média inferior a 20 estudantes.
Face a essa confirmação, garantiu que Governos anteriores tentaram duplicar a capacidade do curso para 40 vagas, medida que colidiu com a capacidade logística e de retenção.
Explicou ainda que o currículo do curso em Cabo Verde é equiparado ao modelo europeu, apesar de reconhecer que ainda não existe uma equivalência oficial automática. A taxa de validação dos diplomas em Portugal é considerada “muito positiva”.
Neste curso, assegurou que um dos principais indicadores de sucesso tem sido a capacidade demonstrada pelos estudantes cabo-verdianos na validação dos seus diplomas em exames nacionais e europeus realizados em Portugal, um país reconhecido pelo elevado padrão no ensino da medicina.
“Os jovens médicos cabo-verdianos conseguem competir directamente e entram em especialidades médicas europeias logo após o término do curso, mesmo sem experiência prévia”, afirmou, salientando que a medicina cabo-verdiana não forma profissionais “apenas para Cabo Verde, dado o seu impacto global”.
Em termos de equivalência, avançou que o Brasil é o destino com maior facilidade burocrática, garantindo a equivalência automática de diplomas, um excelente acolhimento e o envio contínuo de estudantes.
Neste momento, precisou, quatro alunos estão no país a frequentar as suas especialidades de forma directa.
Apesar disso, afirma que o Ministério da Saúde precisa de estar melhor preparado para dialogar com as entidades formadoras e absorver os médicos que queiram permanecer no país.
Sustentou ainda que o curso de Medicina da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) tem direccionado os seus esforços para garantir que os seus licenciados exerçam a sua profissão na área de formação, evitando a integração em sectores como a restauração e o comércio alimentar no estrangeiro.
Perante esta constatação, realçou que o cenário actual é drástico, uma vez que existem turmas inteiras em que apenas dois alunos decidem ficar no país e os restantes rumam a Portugal, movidos pela busca de maiores recursos técnicos e financeiros, ainda que a integração no mercado europeu se revele igualmente difícil.
Ainda como exemplo, apontou que na Europa o processo de validação é mais complexo devido às rigorosas normas comunitárias, exigindo que os graduados realizem um processo formal de validação de diplomas em cada país.
A mobilidade para os EUA, explicou, está nos planos futuros, mas a sua implementação exige a criação de mecanismos específicos junto das ordens e autoridades médicas americanas para a autorização do exercício da profissão.
No que respeita à mobilidade, esclareceu que a instituição se mantém activa na busca de novas parcerias e na expansão de protocolos com universidades de renome, como a Universidade de Coimbra.
“Actualmente, os estudantes têm total liberdade para escolher as suas rotas de mobilidade académica, frequentando com regularidade instituições nas Canárias e no Brasil, mantendo o curso sempre aberto à cooperação com países parceiros”, afirmou.
Reiterou que o curso de medicina no país, além das candidaturas locais, tem promovido a diversidade cultural e académica no campus através do acolhimento de estudantes estrangeiros, nomeadamente dos países da CPLP, com particular destaque para estudantes provenientes do Brasil.
“Embora o feedback dos estudantes estrangeiros seja positivo, existe o desejo de aumentar a participação de países vizinhos e lusófonos, como Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Angola, cujas vagas ainda podem ser mais bem aproveitadas”, finalizou.
PC/HF
Inforpress/Fim
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