REPORTAGEM/Entre sucata e oportunidades: mentor revela percurso de vida por detrás de projecto de reciclagem

Inicio | Ambiente
REPORTAGEM/Entre sucata e oportunidades: mentor revela percurso de vida por detrás de projecto de reciclagem
19/03/26 - 04:22 pm

Espargos, 19 Mar (Inforpress) – No meio de montes de ferro, alumínio e cobre, alinhados por categorias e prontos para prensagem, um projecto de reciclagem, no Sal, vai ganhando dimensão ambiental e económica, mas também humana, marcada pelo percurso do seu mentor, Moisés Adjei.

A iniciativa, que hoje movimenta toneladas de resíduos metálicos, teve uma origem modesta e pouco estruturada.

Em entrevista à Inforpress, Moisés Adjei contou que o projecto resulta de um longo caminho feito de tentativas e reinvenção profissional.

“Cheguei ao Sal em 2006. Comecei como sapateiro. Fui andando devagar, até perceber que podia fazer algo diferente”, relatou.

Segundo explicou, a viragem para a reciclagem aconteceu anos mais tarde, após contactos e experiências com outros operadores.

“Há cerca de três anos comecei mais a sério. Comecei com um projecto pequeno, a recolher aqui e ali, sem muitos meios”, disse.

O crescimento do projecto ganhou novo impulso com a aquisição de equipamentos no exterior, nomeadamente máquinas de prensagem.

“Consegui trazer máquinas da Índia para prensar chapa, ferro e outros materiais. Hoje já conseguimos tratar melhor o lixo que recolhemos”, afirmou.

Actualmente, a actividade envolve cerca de oito trabalhadores permanentes, para além de colaboradores ocasionais na recolha e transporte.

O trabalho começa cedo e estende-se ao longo do dia, com equipas distribuídas entre a recolha em diferentes pontos da ilha e o tratamento no estaleiro.

“Temos pessoas a trabalhar na lixeira, outras com carrinhas a recolher materiais. Aproveitamos tudo: chapa, ferro, cobre… só não trabalhamos com plástico”, explicou.

Todo o material é separado, prensado e preparado para venda, sendo posteriormente encaminhado para fora da ilha.

Apesar da evolução, Moisés Adjei aponta o transporte como o principal entrave à expansão do negócio.

“O maior problema é o transporte. Às vezes temos material pronto, mas não conseguimos enviar”, lamentou.

No terreno, os trabalhadores confirmam o impacto directo da actividade. 

Sky Achebe, que trabalha no projecto há cerca de cinco anos, afirmou que encontrou na reciclagem uma alternativa estável ao sector da construção.

“Antes trabalhava na obra. Agora estou melhor, consigo sustentar a minha família. E também ajudamos a manter a ilha limpa”, disse.

A percepção da população em relação aos resíduos metálicos também tem vindo a mudar. Materiais antes considerados lixos passam agora a ser vistos como fonte de rendimento, contribuindo para uma maior limpeza dos espaços urbanos.

Na ocasião, foi também referida a existência de outras iniciativas em curso no Sal ligadas à reciclagem, nomeadamente na recolha de plásticos, latas e garrafas, algumas das quais em fase de licenciamento.

Sem grande enquadramento industrial local, a reciclagem na ilha do Sal continua dependente da exportação, o que levanta desafios estruturais. Ainda assim, iniciativas como a de Alto Santa Cruz vão afirmando o seu papel num contexto onde a gestão de resíduos permanece uma questão sensível.

De forma pontual, fontes municipais reconhecem que projectos deste tipo contribuem para a redução de resíduos nas vias públicas, embora persistam limitações ao nível da logística e da capacidade de resposta integrada.

De regresso ao estaleiro, o movimento é constante. Enquanto um caminhão descarrega mais sucata, outro lote já prensado aguarda transporte.

Num território marcado por limitações estruturais, o que começou como uma actividade improvisada transforma-se, pouco a pouco, numa solução com impacto económico, social e ambiental.

NA/ZS

Inforpress/Fim

Partilhar