
Cidade da Praia, 10 Ago (Inforpress) - Jovens quadros com licenciatura, mestrado e, em alguns casos, até doutoramento, voltam para Cabo Verde com a visão e desejo de contribuir para o desenvolvimento do país, no entanto ficam presos no ciclo sem saída do primeiro emprego.
Em relatos à Inforpress, o drama dos jovens quadros formados no exterior que trocam o canudo pela incerteza em Cabo Verde transforma a expectativa do regresso num silêncio doloroso de portas fechadas.
Tudo porque o entusiasmo do regresso esbarra quase imediatamente numa barreira que muitos consideram ilógica, com a exigência sistemática de dois ou mais anos de experiência profissional para vagas de entrada.
O cenário repetitivo de candidaturas rejeitadas e currículos sem resposta gera uma vaga de apreensão, impaciência e profunda desilusão entre os recém-graduados, fazendo com que a promessa de que o ensino superior seria o passaporte para a estabilidade pareça ter estancado na burocracia do mercado de trabalho local.
“Trabalhei noites a fio fora do país para terminar o meu mestrado com excelentes notas. Quando cheguei aqui, achava que ia conseguir dar o meu contributo, mas abre-se qualquer concurso ou oferta de emprego privada e a primeira linha é sempre a mesma: mínimo de dois anos de experiência provada”, conta Ana Monteiro, mestre em Gestão de Empresas, questionando como é que vai ter experiência se ninguém lhe dá a primeira oportunidade.
“É um ciclo sem saída que nos deixa completamente de mãos atadas”, desabafa outra recém-formada, em marketing, de 26 anos, para quem a falta de mecanismos públicos ou privados de transição que absorvam estes quadros qualificados tem deixado dezenas de jovens à deriva.
Sem ocupação na sua área de formação, muitos admitem que o vazio do quotidiano afecta a saúde mental e abre portas a comportamentos de risco ou a distrações pouco saudáveis para preencher o tempo.
“O pior é o sentimento de inutilidade”, desabafa Adilsa Santos, de 29 anos, recém-doutorada.
“Saímos da universidade com todo o gás e de repente estagnamos. Ficas em casa a ver os dias passar, a gastar o que não tens, e começas a procurar qualquer coisa para distrair a cabeça, e nem sempre são as melhores opções. O país investe na nossa formação ou incentiva-nos a estudar fora, mas depois não cria condições para nos segurar. Sentimo-nos esquecidos”, exteriorizou.
Esta realidade ganha contornos ainda mais complexos com a insularidade e a mobilidade interna, uma vez que muitos jovens de outras ilhas, como o Sal, depois de concluírem a sua formação académica ou profissional, vêm para a Praia em busca de oportunidades, enfrentando não só o obstáculo da falta de experiência exigida, mas também os custos e os desafios de recomeçar a vida longe de casa e da família.
O problema, no entanto, não afecta apenas quem regressa com diplomas do estrangeiro.
Vários recém-formados, também em conversa à Inforpress, sublinham que os jovens que frequentam as universidades no país passam exactamente pelo mesmo dilema, após anos de investimento nos estabelecimentos de ensino superior locais.
Com o descontentamento a crescer, os jovens alertam para o risco do agravamento da fuga de cérebros, questionando até quando a juventude qualificada de Cabo Verde terá de esperar para que o mérito académico valha mais do que a exigência de anos de trabalho que nunca tiveram oportunidade de acumular.
“Para se ter experiência há que começar, e o futuro do mercado de trabalho nacional depende da coragem de abrir portas a quem acaba de chegar”, defendem.
SC/CP
Inforpress/Fim
Partilhar