Campo do Tarrafal: História oral e testemunhos de antigos presos fundamentais para reconstruir a história – investigadora

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Campo do Tarrafal: História oral e testemunhos de antigos presos fundamentais para reconstruir a história – investigadora
02/11/26 - 04:47 pm

Cidade da Praia, 02 Nov (Inforpress) – A investigadora Nélida Brito destacou hoje a importância dos testemunhos de antigos presos políticos para reconstrução da história do Campo de Concentração do Tarrafal e a história oral como “fonte essencial” para conhecer as experiências vividas pelos prisioneiros.

O Campo de Concentração do Tarrafal, situado em Chão Bom, ilha de Santiago, foi criado em 1936 pelo regime ditatorial português. 

Conhecido como “Campo da Morte Lenta”, foi utilizado para prender e torturar opositores políticos e nacionalistas africanos, tornando-se símbolo da repressão colonial e da luta pela liberdade.

A posição foi manifestada durante o primeiro painel do Encontro Internacional História Oral e Memórias, realizado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), no qual a investigadora partilhou a sua experiência de investigação sobre o antigo campo de concentração, em Santiago.

Brito explicou que o trabalho, que deu origem a duas obras publicadas em 2016 e 2021, recorreu a testemunhos de sobreviventes, memórias escritas, documentos primários e bibliografia disponível para estudar as diferentes fases de funcionamento do campo.

“Foi muito importante ouvir, na primeira pessoa, o dia-a-dia destes prisioneiros”, afirmou, ao recordar os contactos que estabeleceu com antigos presos e a oportunidade de conhecer directamente as experiências e os sofrimentos vividos durante o período de reclusão.

A investigadora abordou as duas fases de funcionamento do campo: a primeira, entre 1936 e 1954, e a segunda, de 1961 a 1974, período em que foram detidos presos políticos cabo-verdianos, angolanos e guineenses.

Segundo explicou, a investigação sobre a primeira fase foi sustentada, entre outras fontes, por 11 memórias escritas e publicadas por antigos prisioneiros portugueses após a Revolução de 25 de Abril de 1974.

Relativamente à segunda fase, a investigadora referiu a existência de apenas cinco obras de memórias escritas por antigos presos, o que tornou os testemunhos orais particularmente importantes para completar a informação histórica.

“Os presos da segunda fase prestaram depoimentos na primeira pessoa, por isso a história oral ficou mais completa e enriquecida”, observou.

Nélida Brito referiu ainda que os relatos permitem compreender não apenas as condições de detenção no campo, mas também as perseguições, capturas, interrogatórios e torturas sofridas pelos presos antes da sua deportação para o Tarrafal.

A investigadora considerou que os testemunhos orais permitem aceder a dimensões da experiência humana que nem sempre ficam registadas nos documentos escritos, incluindo emoções, hesitações e silêncios associados às recordações dos acontecimentos.

No final da comunicação, defendeu a necessidade de confrontar os relatos recolhidos com os documentos oficiais, de modo a assegurar o rigor da investigação histórica.

“É importante realmente despertarmos as memórias e usarmos o relato de prioridade, confrontando-se sempre com os documentos oficiais para que se possa escrever a história da humanidade”, finalizou.

KA/AA

Inforpress/Fim

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