Batucadeiras transformam aeroporto da Praia em palco de celebração e ritual de acolhimento da diáspora (c/vídeo)

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Batucadeiras transformam aeroporto da Praia em palco de celebração e ritual de acolhimento da diáspora (c/vídeo)
08/08/26 - 01:15 am

*** Por Luís Carvalho, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 08 Ago (Inforpress) - Uma roda de batucadeiras rompe hoje a rotina do Aeroporto Internacional Nelson Mandela, surpreendendo emigrantes à chegada ao som das “txabetas”, flores e abraços que marcam reencontros emocionantes, transformando o terminal num palco de celebração da diáspora cabo-verdiana.

Quem atravessa a porta de chegadas dificilmente imagina o que o espera. Entre familiares ansiosos, surge um grupo de mulheres vestidas a rigor, flores nas mãos e um sorriso cúmplice. A líder das batucadeiras aproxima-se do recém-chegado, entrega-lhe um bouquet de flores e lança o desafio: "Consegue adivinhar quem preparou esta surpresa?". Seguem-se alguns instantes de expectativa, até que a pessoa consiga acertar o nome do familiar que mandou montar aquela surpresa e, logo, surge o abraço que desfaz anos de distância. Muitas vezes, as lágrimas chegam antes das palavras.

O momento é promovido essencialmente pelos grupos de batuque “Mondon” e “Raíz de Tambarina”, que decidiram transformar o aeroporto num espaço de acolhimento, onde a tradição cabo-verdiana recebe aqueles que regressam à terra para matar saudades da família e das origens.

O ambiente contrasta com a imagem que durante décadas marcou a história migratória de Cabo Verde. Durante gerações, a emigração teve como banda sonora a despedida. Nas aldeias e bairros, familiares acompanhavam quem partia com mornas carregadas de emoção, conscientes de que o reencontro poderia demorar muitos anos. No interior de Santiago, o batuque e o funaná faziam parte do reportório de despedida.

"Sodade", eternizada por Cesária Évora, tornou-se o maior símbolo dessa realidade. A canção recorda as partidas para São Tomé e Príncipe e para outros destinos onde milhares de cabo-verdianos procuraram melhores condições de vida, deixando para trás famílias, amores e projectos interrompidos.

Se a morna traduzia a dor da separação, o batuque passa agora a representar o momento inverso: o regresso. A música deixa de acompanhar quem parte para celebrar quem volta.

No terminal da Praia, a emoção é visível. Há emigrantes que regressam todos os anos, mas também há aqueles que chegam depois de cinco, dez ou 40 anos de ausência.

Muitos não conseguem conter as lágrimas ao ouvirem os primeiros acordes do batuque, enquanto familiares se juntam à roda para a celebração desta chegada.

Os passageiros que aguardam outros voos também acabam envolvidos pelo ambiente festivo. Alguns filmam com os telemóveis, outros batem palmas ao ritmo das “txabetas”, enquanto turistas observam com curiosidade uma manifestação cultural que transforma um simples aeroporto num palco vivo das tradições cabo-verdianas.

Para as batucadeiras, cada recepção é diferente. Antes da chegada do voo, recebem informações fornecidas pelos familiares sobre a pessoa homenageada. Procuram conhecer a história do emigrante, o tempo que esteve fora do país e os familiares presentes, para tornar o momento mais personalizado.

A breve conversa conduzida pelas líderes dos grupos tornou-se uma das marcas da iniciativa. Entre perguntas, brincadeiras e pistas, tenta levar o emigrante a descobrir quem organizou a surpresa, prolongando a expectativa até ao abraço final, normalmente acompanhado por aplausos e pela continuação da roda de batuque.

A iniciativa tem vindo a conquistar espaço no aeroporto precisamente numa altura em que milhares de cabo-verdianos residentes na diáspora escolhem os meses de Verão para visitar o país. O reencontro familiar transforma-se, assim, também num reencontro com a cultura nacional.

Mais do que uma animação musical, o batuque assume um significado simbólico. Uma manifestação cultural que, durante muito tempo esteve associada às comunidades rurais e às celebrações tradicionais, ganha agora um novo palco e uma nova função: receber aqueles que, apesar de viverem longe, continuam a manter uma ligação profunda com Cabo Verde.

A mudança reflecte também a evolução da própria experiência migratória cabo-verdiana. Se outrora o aeroporto era sobretudo um lugar de despedidas, onde predominavam o silêncio, os abraços demorados e a incerteza sobre o próximo reencontro, hoje passa igualmente a ser um espaço de celebração, onde o regresso merece um ritual próprio.

As irmãs Eveline Simone Rodrigues e Anilsa Leony Mendes não conseguiram conter a emoção quando ouviram os seus nomes serem anunciados ao ritmo das “txabetas”, numa surpresa preparada pela mãe para assinalar o regresso a Cabo Verde.

Visivelmente comovidas, disseram à Inforpress que jamais imaginaram uma recepção daquela dimensão, considerando o momento "inesquecível" e uma demonstração do carinho que as liga às suas raízes e à família.

Também o jovem Edgar, emigrante residente em França, viveu um reencontro marcante. Após 26 anos sem pisar o solo cabo-verdiano, confessou ter sido completamente apanhado de surpresa pela homenagem preparada à sua chegada.

"Não esperava uma recepção assim. Foi uma emoção muito grande voltar à minha terra e ser recebido desta forma”, afirmou, acrescentando que ficou “muito satisfeito" e que o momento ficará para sempre na sua memória.

Os testemunhos dos emigrantes reflectem o impacto da iniciativa, que transformou a chegada a um dos principais aeroportos do país num espaço de celebração da diáspora cabo-verdiana, valorizando os laços familiares, a cultura nacional e o sentimento de pertença.

O sociólogo Redy Lima considera que o batuque nas recepções aos emigrantes tem uma dimensão espiritual, associada à bênção e ao desejo de uma chegada segura, mas também reforça a coesão comunitária.

Segundo o investigador, a tradição simboliza ainda a ligação entre quem parte e quem fica, o reconhecimento da importância da diáspora e de uma rede comum de cuidados, constituindo uma forte expressão da identidade cabo-verdiana, particularmente de Santiago.

Segundo explicou à Inforpress, durante décadas a narrativa da emigração esteve centrada na partida e na ausência, enquanto o regresso era vivido de forma mais íntima e familiar. Hoje, observa-se a criação de um verdadeiro ritual público de acolhimento, onde a cultura funciona como linguagem de pertença.

LC/CP

Inforpress/Fim

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