
Cidade da Praia, 01 Abr (Inforpress) – O escritor e sociólogo Paulo Ferreira Veríssimo defendeu hoje a necessidade de se investir no hábito de leitura e no ensino da língua cabo-verdiana como forma de fortalecer o consumo e a produção literária no país.
Em entrevista à Inforpress, a propósito do lançamento do seu segundo livro “Cadernos dum Poeta – Relatos de uma Vida Interior”, o autor considerou que não existe uma resistência à poesia, mas sim a necessidade de se cultivar o gosto estético e o hábito de leitura.
Segundo explicou, uma das principais dificuldades está ligada à língua, uma vez que muitos cabo-verdianos escrevem em crioulo, sobretudo nas redes sociais “sem se importar se está a escrever bem ou mal em crioulo”, e enfrentam limitações na leitura por não terem sido ensinados a ler na língua materna.
“O desafio é esse: ensinar as pessoas a escrever para que possam também decodificar a escrita de outras pessoas”, afirmou o escritor, sublinhando a importância de estruturar o ensino da língua cabo-verdiana para melhorar a literacia e ampliar o acesso à produção literária nacional.
Relativamente ao mercado, Paulo Veríssimo disse que a venda de livros em Cabo Verde continua a ser um “processo lento”, com maior concentração de vendas durante os lançamentos, o que obriga os autores a promoverem várias apresentações.
Apesar das dificuldades, o sociólogo apontou a diáspora cabo-verdiana como um mercado com grande potencial ainda pouco explorado, especialmente para obras escritas em língua materna.
O autor destacou ainda que livros em crioulo tendem a ter maior aceitação em determinados espaços culturais, como o Centro Cultural da Cidade Velha, ao contrário de algumas obras em português que enfrentam mais dificuldades.
Entre os constrangimentos do sector, referiu a dificuldade de acesso a patrocínios e os custos, nomeadamente as comissões cobradas por livrarias, que podem variar entre 20 e 30 por cento do valor de venda dos livros.
Por outro lado, enfatizou o papel dos jovens, que, segundo disse, têm demonstrado maior adesão à leitura e escrita, incluindo em língua cabo-verdiana, embora ainda enfrentam desafios relacionados com o domínio das regras de escrita, como a acentuação.
“Eu queria fazer um apelo a todas as instituições públicas e privadas com responsabilidade social que priorizasse os jovens, os novos autores que estão a surgir pela primeira vez na literatura cabo-verdiana”, exortou.
“Aquilo que temos assistido é uma reprodução do status quo, com escritores que já têm estrada a conseguirem patrocínios mais facilmente, enquanto os que querem entrar vêm os seus sonhos adiados”, lamentou, concluindo que é preciso apoiar os novos autores porque, como refere o poeta, “os sonhos comandam a vida”.
LT/CP
Inforpress/Fim
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