
Cidade da Praia, 19 Fev (Inforpress) – O sociólogo guineense Miguel de Barros considerou hoje que a Guiné-Bissau atravessa uma situação “muito crítica”, marcada por fragilidade institucional e influência militar, defendendo garantias democráticas sólidas antes da realização de novas eleições no país.
Miguel de Barros fez estas declarações à imprensa à margem da cerimónia de lançamento da obra “De Guerrilheiro ao Homem de Estado”, do antigo Presidente da República, comandante Pedro Pires, realizada esta tarde na Cidade da Praia, quando instado a comentar o actual contexto político da Guiné-Bissau.
O sociólogo alertou para a fragilidade estrutural do Estado e para a persistência da influência das Forças Armadas no sistema político.
“A Guiné-Bissau não produziu instituições consolidadas, quer do ponto de vista político, quer económico, e, ao mesmo tempo, essas instituições estão reféns das disputas políticas, ainda dominadas por instituições com maior peso, que são as Forças Armadas”, afirmou.
Segundo Miguel de Barros, o país enfrenta uma “dupla clivagem”, resultante da não transição efetiva do sistema militar para um contexto de paz social e democracia plena, aliada ao falhanço de um processo de revisão política adaptado a uma nova geração.
“O que estamos a acompanhar aqui é uma dupla clivagem: uma clivagem de inércia da transição do sistema militar e, ao mesmo tempo, o falhanço de um processo de revisionismo político”, sublinhou.
Questionado sobre a possibilidade de novas eleições como saída para a crise, Miguel de Barros defendeu que o recurso às urnas deve ser precedido de garantias claras quanto ao respeito pelos resultados e à transparência do processo.
“Até prova em contrário, não há nada mais certo na democracia do que as eleições”, declarou, acrescentando, contudo, que é necessário assegurar o respeito pelos resultados eleitorais, a participação de todos os actores, a monitorização independente e eventual auditoria pública do processo anterior.
Para o sociólogo, qualquer solução deve passar por um amplo consenso nacional e pelo reforço da democracia, afastando qualquer cenário de regime militar.
“Nós estamos na democracia; enquanto vivemos na democracia, é o povo que escolhe os seus decisores”, concluiu.
A Guiné-Bissau está suspensa da CPLP, da CEDEAO e da União Africana, consequência do golpe de Estado ocorrido em 26 de Novembro, quando o Alto Comando Militar tomou o poder, destituiu o Presidente Umaro Sissoco Embaló, que deixou o país, e suspendeu o processo eleitoral.
As eleições gerais, presidenciais e legislativas, tinham decorrido sem incidentes, mas, na véspera da divulgação dos resultados oficiais, um tiroteio em Bissau antecedeu a tomada de poder pelos militares, que nomearam o Presidente de transição, general Horta Inta-A.
A tomada de poder pelos militares está a ser denunciada pela oposição como uma manobra para impedir a divulgação dos resultados eleitorais.
CM/JMV
Inforpress/Fim
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