
Cidade da Praia, 19 Fev (Inforpress) – O sociólogo guineense Miguel Barros afirmou hoje que o livro “De Guerrilheiro a Homem de Estado”, de Pedro Pires, representa um dever histórico de resgate da memória, num contexto marcado pela disputa política sobre a narrativa da independência.
Barros fez estas declarações à imprensa à margem da cerimónia de lançamento da obra do antigo Presidente da República, o comandante Pedro Pires, realizada esta tarde na Cidade da Praia.
O sociólogo foi convidado para apresentar o livro juntamente com o historiador António Correia e Silva.
Para Miguel Barros, o livro constitui uma contribuição estruturante para a consolidação da identidade nacional e para o esclarecimento histórico das novas gerações.
O sociólogo destacou a “elevação política” de Pedro Pires ao optar por escrever memórias, em vez de discursos ou biografias tradicionais.
“Os antigos Presidentes costumam publicar livros de discursos ou biografias, nos quais procuram impor a sua visão ou deixar a ideia de como querem ser recordados. Pedro Pires não faz isso; ele faz um livro de memórias”, afirmou.
Segundo Barros, num contexto em que a disputa da memória se tornou um dos elementos mais fraturantes da sociedade contemporânea, a obra surge como instrumento fundamental de clarificação histórica.
“Um dos elementos mais fraturantes da sociedade actual é a disputa da memória. Ao assumir o dever da memória, Pedro Pires permite compreender em que condições se fez a luta, como se assumiu o país independente e o que foi feito para a construção da sociedade que temos hoje”, sublinhou.
O sociólogo acrescentou que a narrativa apresentada no livro constitui uma contra-narrativa à ideia da “portugalidade” enquanto instrumento de dominação colonial, reforçando a centralidade da luta de libertação como epopeia fundadora da identidade nacional.
Para Barros, a obra assume particular relevância num momento em que se disputam simbolicamente figuras históricas, datas e marcos nacionais, como Amílcar Cabral, o dia da independência e o da democracia cabo-verdiana.
“O sistema político falhou em relação ao sistema educativo, porque não produziu instrumentos que permitam a absorção dessa epopeia de forma não partidarizada. Por isso, experiências como esta são fundamentais para preencher esse vazio”, defendeu.
O sociólogo destacou ainda o papel singular de Pedro Pires na história da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, lembrando que o comandante participou directamente na luta armada e esteve presente nas proclamações de independência dos dois países.
“Não há ninguém no mundo que tenha estado na proclamação de independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Ele esteve, e ainda está vivo. É preciso aproveitar esse contributo, que é extremamente importante para a própria história”, concluiu.
O livro foi apresentado no âmbito de uma iniciativa do Instituto Pedro Pires para Liderança, reunindo académicos, investigadores e personalidades da vida pública para refletir sobre memória, identidade e construção do Estado.
CM/JMV
Inforpress/Fim
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