
Cidade da Praia, 19 Fev (Inforpress) – O historiador António Correia e Silva afirmou que o livro “De Guerrilheiro a Homem de Estado” revela um Pedro Pires humano, determinado e vulnerável, oferecendo novos elementos para compreender a luta pela independência de Cabo Verde.
António Correia e Silva considera que a autobiografia, da autoria do ex-Presidente Pedro Pires, constitui um importante contributo para a compreensão da história contemporânea do país, ao apresentar uma dimensão humana do protagonista da independência.
Segundo o historiador, a obra mostra “um Pedro Pires real, com hesitações, com medos, mas com uma determinação enorme quanto à identificação com a causa da independência de Cabo Verde”.
Essa abordagem permite compreender melhor os desafios pessoais, políticos e militares enfrentados durante a luta pela libertação, acrescentou.
A autobiografia percorre o trajecto do comandante Pedro Pires desde Santana, na ilha do Fogo, passando por São Filipe e pelo Mindelo — onde frequentou o então único liceu do arquipélago — até Lisboa, cidade em que viveu um momento decisivo da sua vida.
Foi na capital portuguesa que abandonou os estudos universitários e desertou do exército português para abraçar a causa da independência.
“Isso demonstra uma coragem cívica e pessoal muito grande”, afirmou o historiador, sublinhando que, a partir dessa decisão, Pires renunciou à estabilidade profissional e a um futuro previsível para assumir uma causa marcada pela incerteza.
A obra descreve ainda o envolvimento directo de Pedro Pires na guerrilha, desempenhando funções diversas — de mobilizador e recrutador até responsável pela logística operacional no teatro de guerra — culminando no seu papel como negociador da independência.
O livro encerra com o momento simbólico da proclamação da independência nacional.
Para António Correia e Silva, o valor do livro reside também no facto de trazer informações e reflexões que dificilmente constam dos arquivos oficiais.
“São informações difíceis de obter em documentos formais, porque aqui temos um ponto de vista vivido, com sentimentos, reflexões e hesitações”, salientou.
O historiador afirma que a obra contribui para explicar uma das grandes questões da história nacional: como uma sociedade organizada como colónia conseguiu projetar-se como nação independente.
Segundo o especialista, essa transformação representou, à época, uma ideia radical e geradora de insegurança, mas que acabou por moldar o destino coletivo do país.
António Correia e Silva entende que “De Guerrilheiro a Homem de Estado” não é apenas um relato pessoal, mas uma fonte relevante para historiadores e para as novas gerações, ao iluminar as escolhas, dúvidas e convicções que marcaram o percurso de Cabo Verde rumo à independência.
CM/JMV
Inforpress / Fim
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