
Assomada, 17 Fev (Inforpress) – As ruas de Assomada viveram hoje um Carnaval com pouco movimento e quase sem folia, enquanto educadoras e crianças dos jardins de infância sonham em devolver cor, tradição e alegria às celebrações no coração de Santa Catarina.
Na tarde de terça-feira, o silêncio contrastava com o que se espera do reinado de Momo.
Tirando a rua pedonal, onde decorria a Feira de Cinzas promovida pela Câmara Municipal de Santa Catarina, e algum movimento no mercado municipal, a cidade parecia distante do espírito carnavalesco.
Muitos dos que quiseram brincar recorreram a concelhos vizinhos como Tarrafal, São Miguel, São Salvador do Mundo, São Lourenço dos Órgãos e Santa Cruz, onde houve grupos de animação e actividades diversas.
Em Assomada, porém, o brilho veio sobretudo das crianças. Na passada sexta-feira, algumas escolas básicas e três jardins de infância uniram esforços para garantir um pequeno desfile, mostrando que, apesar das dificuldades, a tradição resiste.
A iniciativa partiu do Jardim Os Pastorinhos de Fátima, que este ano escolheu o tema “Fundo do Mar”, procurando aproximar os mais pequenos da riqueza do mundo marinho, mesmo num concelho onde o mar parece distante do centro urbano.
Vestidos com imagens de peixes coloridos, algas e outras criaturas marinhas, os pequenos foliões enfrentaram o sol quente com uma energia contagiante.
Sambaram à sua maneira, entre passos improvisados e gargalhadas espontâneas, percorrendo vários quilómetros pelas ruas da cidade. Mesmo quando o cansaço se fazia sentir, bastava o som da música para reacender o entusiasmo e continuar a marcha, orgulhosos dos seus trajes e do papel que desempenhavam.
Ao longo do percurso, comerciantes, moradores e transeuntes paravam para observar. Alguns registaram o momento com os telemóveis, outros aplaudiram e incentivaram as crianças, devolvendo à cidade, ainda que por algumas horas, o ambiente festivo que parecia ausente.
O sorriso estampado nos rostos dos mais velhos denunciava uma certa nostalgia e a esperança de que a tradição possa ganhar novo fôlego.
Para muitos pais, ver os filhos desfilarem foi motivo de satisfação e emoção. Apesar do esforço financeiro assumido quase exclusivamente pelas famílias, sentiram que “valeu a pena” contribuir para que as crianças vivessem a experiência do Carnaval e mantivessem contacto com as tradições, incluindo o simbólico café e almoço de Cinzas antecipado organizado pelos jardins.
Marlene Ortet, responsável pelo jardim organizador, reconhece que o Carnaval não é uma tradição forte em Santa Catarina, mas defende que a cultura deve ser ensinada desde cedo.
Explica que o valor pago pelos pais é dividido entre trajes, materiais e alimentação, reforçando que ninguém fica de fora, graças também ao apoio solidário de costureiros e amigos.
Gracinda Ribeiro, do Jardim Graça de Crescer, e Cleunice Varela, do Jardim Asas de Aprendizagem, partilham da mesma preocupação: “Sem apoios institucionais consistentes, torna-se difícil organizar um Carnaval à altura do entusiasmo das crianças”.
Ainda assim, acreditam que, com maior envolvimento das entidades, seria possível reunir todos os jardins do centro de Assomada num único desfile infantil, devolvendo à cidade rubor e fortalecendo a transmissão dos traços culturais às novas gerações.
Nos restantes municípios da ilha, também as escolas e jardins de infância saíram às ruas, organizaram desfiles e atividades recreativas, mantendo viva a tradição carnavalesca entre os mais pequenos e demonstrando que, com articulação e apoio, é possível preservar esta manifestação cultural que marca o calendário festivo cabo-verdiano.
MC/JMV
Inforpress/Fim
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