
Cidade da Praia, 12 Ago (Inforpress) - A antiga inspectora de educação, Clara Marques, transformou a paixão de uma vida num projecto de salvaguarda nacional ao criar o Museu da Educação de Cabo Verde, o único no país dedicado a preservar a memória do ensino.
Instalado no histórico edifício da Escola Grande na Praia, imóvel de 1777 mandado erguer para abrigar as primeiras escolas oficiais do arquipélago, o espaço reúne hoje mais de 1.200 peças históricas, afirmando-se como uma homenagem ao passado, uma ferramenta para o presente e um alerta para o futuro.
O espaço que guarda desde objectos de castigos corporais, como a palmatória, vara de marmeleiro, instrumentos didáticos em vias de extinção que moldaram gerações, até ao registo biográfico completo de todos os professores cabo-verdianos entre 1936 e 1956, é mantido a custos próprios pela fundadora, que apela a um maior apoio institucional e à criação de parcerias para garantir a sustentabilidade do acervo.
A ideia de fundar a instituição, um projecto pioneiro e singular nascido da urgência de travar o desaparecimento do património pedagógico e histórico do arquipélago, surgiu durante as missões de inspecção escolar de Clara Marques, ao constatar o descarte sistemático de materiais históricos nas escolas.
Hoje, o espólio do museu retrata a evolução do ensino no país, do período colonial ao pós-independência.
“Nas minhas visitas, verificava que materiais riquíssimos estavam a desaparecer devido a reformas ou mudanças de mobiliário. Questionei-me sobre o que devia fazer para resgatar e valorizar esse património e percebi que o caminho era um museu”, recorda.
Entre as raridades pedagógicas do museu, a verdadeira joia da coroa é composta por dois volumes monumentais do Registo Biográfico de Professores, que guardam a memória funcional de todos os docentes do país, entre 1936 e 1956, detalhando desde louvores até sanções disciplinares.
O visitante pode ainda imergir no ambiente colonial através da reconstituição de uma sala de aula dos anos 60, equipada com o tradicional crucifixo à parede, os mapas antigos do império e o mobiliário alinhado sob o lema salazarista Deus, Pátria, Família.
Apesar do seu papel fulcral na preservação da identidade cultural cabo-verdiana, o Museu da Educação, quase integralmente financiado com recursos pessoais de Clara Marques, que contabiliza já investimentos avultados, enfrenta sérias dificuldades financeiras e logísticas.
“É um museu gratuito porque queremos criar nas pessoas o hábito de visitar museus. Mas é suportado por mim mesma. Em Cabo Verde ainda não temos a tradição de patronato ou apoio sistemático do sector privado ou estatal aos museus independentes. Faço-o por amor e gratificação ao ver as pessoas retrocederem à infância ao entrarem aqui”, desabafa.
A fundadora faz um apelo ao Governo, ao município e a entidades parceiras para a criação de um quadro de apoio técnico e financeiro permanente.
O objectivo passa por garantir uma equipa executiva estável, digitalizar o acervo, publicar o catálogo técnico das peças e modernizar o espaço com tecnologias multimédia e interactivas.
De portas abertas de segunda a sexta-feira na Escola Grande da Praia, o Museu da Educação continua a ser uma paragem obrigatória para quem deseja compreender as raízes do conhecimento e da formação da sociedade cabo-verdiana.
SC/CP
Inforpress/Fim
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