
Cidade da Praia, 20 Ago (Inforpress) – O músico e intérprete cabo-verdiano Agnelo Duarte, conhecido artisticamente como Dutralenga, defendeu hoje, na Praia, a criação de festivais dedicados exclusivamente à música tradicional cabo-verdiana como forma de promover e preservar géneros como morna, coladeira, batuque e funaná.
Em entrevista à Inforpress, Agnelo Duarte considerou necessário criar espaços próprios para os músicos que trabalham com géneros tradicionais, apontando que muitos artistas têm dificuldade em chegar aos grandes palcos, onde, segundo afirmou, predominam propostas musicais que despertam maior interesse junto da juventude.
“Para promover mais e preservar mais, na minha opinião, é estimular compositores que estão a fazer música tradicional, fazer festivais de músicas tradicionais”, argumentou.
A mesma fonte sugeriu que o próprio Governo poderia criar um festival dedicado à música tradicional cabo-verdiana e convidar os músicos que trabalham nesses géneros.
Segundo o artista, existem vários festivais no país, mas considera que estes eventos já têm uma estrutura montada e acabam por convidar “sempre as mesmas pessoas”, deixando de fora muitos músicos ligados à música tradicional.
“Ganhamos alguma coisa só com a noite cabo-verdiana e assim desmotiva”, afirmou, pelo que, perante a falta de oportunidades, muitos compositores continuam a trabalhar e a “guardar as suas produções na gaveta”.
Para Agnelo Duarte, a criação de actividades exclusivamente dedicadas à música tradicional permitiria dar mais espaço aos músicos desses géneros, uma vez que nos palcos onde são apresentados outros estilos musicais a música tradicional nem sempre consegue alcançar o mesmo impacto junto do público jovem.
O músico afirmou que é “muito crítico” quando se fala na necessidade de preservar a música cabo-verdiana, questionando, contudo, o que está efectivamente a ser feito para garantir essa preservação.
“Nós, por exemplo, que cantamos a música tradicional, como morna e coladeira, quase que a geração nova não abraça esses géneros. Muitos de nós não estamos nos palcos grandes, são poucos”, observou.
Agnelo Duarte explicou que interpreta morna, coladeira, batuque e funaná, géneros que, na sua perspectiva, têm capacidade para estar presentes em grandes palcos, mas que continuam a encontrar dificuldades para alcançar esses espaços.
O artista manifestou preocupação com o futuro da música tradicional e acredita que, dentro de cerca de dez anos, poderá ser difícil encontrar pessoas a cantar estes géneros.
Acrescentou que os turistas também gostariam de ouvir música tradicional cabo-verdiana, mas poderão encontrar dificuldades para assistir a apresentações ao vivo.
Na sua análise, a dificuldade de acesso aos grandes palcos está também relacionada com as escolhas dos produtores, que, segundo explicou, promovem artistas com maior capacidade de mobilização do público.
Apesar das críticas, Agnelo Duarte disse que não considera errado que os jovens apreciem outros estilos musicais.
Pelo contrário, continuou, disse entender que é necessário procurar formas de aproximar a música tradicional das novas gerações, incluindo através de fusões com géneros contemporâneos.
“Não é que esteja errado. Eu já tentei fazer fusão entre batuque e rap, tenho uma música com meu filho com esses géneros”, contou.
A música deu nome ao álbum “Nôs Convivência”, lançado em 2022, trabalho que, segundo o artista, resultou também dessa procura de aproximação entre diferentes sonoridades.
Além da vertente artística, Agnelo Duarte destacou o trabalho desenvolvido no domínio dos direitos de autor, sendo ele “um dos fundadores” da Sociedade Cabo-verdiana de Música (SCM).
Dutralenga, natural de Santiago e que actualmente vive entre Portugal e Cabo Verde, tem disponível no YouTube “Sodade Nha Ninho”, uma morna do álbum “Nos Convivência”, e prepara videoclipes de temas dos álbuns de 2015 e 2022.
Na segunda-feira, 24, lança “Nizinha”, uma coladeira do álbum “Sem Complexo”, de 2015.
TC/AA
Inforpress/Fim
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