Santo Antão: Jovem estudante de 17 anos “obrigada” a levantar-se de madrugada para poder chegar à escola

***Por Lucilene Fernandes Salomão, da Inforpress ***

Ribeira Grande, 10 Jan (Inforpress) – Aduzinda Costa “Duzy” é uma jovem de 17 anos que mora na localidade de Corvo e, todos os dias, acorda às quatro horas da madrugada para ir à escola devido à falta de transporte escolar no trajecto Fontainhas/Ponta do Sol.

A história desta jovem continua sendo semelhante a de tantas outras das comunidades encravadas da ilha de Santo Antão que, há muitos anos, convivem com esta dura realidade.

Por querer um futuro melhor esta jovem, conta que acorda às 04:00, arruma a irmã mais pequena para leva-la à escola, na Ponta do Sol, e ainda, por ser a mais velha, serve de “guia” a outros alunos do ensino básico que percorrem o mesmo caminho.

O trajecto que liga Corvo a Fontainhas é de aproximadamente dois quilómetros, mas o caminho é íngreme e de madrugada, conforme contou a nossa fonte, até dá medo devido às estórias de “gongom” que os mais velhos contavam existir nessas bandas.

Por um motivo “nobre” de querer um futuro melhor, Duzy enfrenta seus medos, acorda de madrugada e, ainda, responsabiliza-se pela segurança dos outros alunos mais pequenos.

“Há um mês ficamos sem transporte escolar de Fontainhas até Ponta do Sol e não nos informaram porque razão dispensaram o condutor”, contou.

Sem transporte escolar, Duzy disse que se vê obrigada a acordar de madrugada para poder chegar à escola às 08:00, só que, segundo a mesma, muitas vezes não consegue porque tem de deixar os mais novos na escola básica, na Ponta do Sol.

Um problema que a tem afectado, em relação às faltas, é que nem todos professores entendem a situação e acabam por marcar-lhe faltas.

“Não falto ou mesmo chego atrasada às aulas porque quero. A situação é que me obriga a tal. Os meus pais não têm um trabalho fixo, mas quando conseguem um dia de trabalho, dão-nos dinheiro para pegarmos carros. Se não, temos de esperar a boa vontade de um condutor que nos dê uma boleia caso apareça senão é colocar o pé na estrada até o nosso destino final”, acentuou.

E é neste sentido que Duzy apelou às autoridades para que este problema seja resolvido o quanto antes.

“Tenho um problema no joelho e fui operada, mas ainda tenho sequelas e, fazer este trajecto, só me tem prejudicado”, pontuou.

Por sua vez, o presidente da Associação dos Agricultores de Corvo e Formiguinhas (Agricof), Rui Graça, alegou que está “sensibilizado” com a situação destes alunos.

“Sei o que estão passando até porque no meu tempo de estudante a situação era semelhante. Enquanto presidente da Agricof tenho procurado parcerias juntamente com a Associação de Desenvolvimento Integrado de Fontainhas (Adi Fontainhas) para resolvermos este problema, mas ainda não tivemos ‘feedback’ positivo”, explicou.

Rui Graça disse ainda que os encarregados de educação estão preocupados com a situação e propuseram, mesmo com parcos recursos, disponibilizar o que for possível para resolverem esta situação.

A Inforpress também falou com a vereadora da Educação da Câmara Municipal da Ribeira Grande, Maria de Jesus Rodrigues, que garantiu que o assunto está a ser resolvido desde o início do ano lectivo.

“Contactamos vários condutores e também os membros das associações dessas localidades para fazerem contacto para ver se achavam um condutor, mas as tentativas foram frustradas”, salientou Maria de Jesus Rodrigues.

A autarca prosseguiu dizendo que inicialmente, durante um mês, conseguiram um condutor, mas depois ele mostrou indisponibilidade tendo em conta o péssimo estado da estrada de Fontainhas.

Outrossim, segundo a vereadora da Educação da autarquia ribeira-grandense, o montante pedido para transportar estes alunos era “extremamente” alto.

“São 11 alunos e, pelo valor que estavam a pedir, transportariam quase três vezes esse mesmo número de alunos. A câmara não iria conseguir suportar este montante durante o ano lectivo” afirmou.

Maria de Jesus Rodrigues disse que a edilidade optou por transportar esses alunos em carros do Estado, mas isso exigia várias outras coisas tendo em conta que esse tipo de viaturas não está autorizado a transportar várias pessoas.

Entretanto, a mesma fonte avançou que já fizeram pedido na delegação de viação da Ribeira Grande, mas o mesmo foi canalizado para os serviços centrais que, na sexta-feira passada, deram resposta “afirmativa” para fazer a vistoria do veículo.

“Exigiram colocação de bancos e depois irão fazer outra vistorias e só depois enviar novamente o relatório à Praia e quando vier a autorização para irmos ao seguro regularizar a situação. Não temos uma data prevista para todos estes trâmites pois nem a própria delegação de viação nos soube informar”, frisou.

Pelo menos, segundo Maria de Jesus Rodrigues, garantiram que vão agilizar o processo, pelo que disse esperar que a decisão não demore muito tempo.

LFS/CP

Inforpress/Fim

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