Representatividade das mulheres na política ainda aquém do desejado – deputadas (c/vídeo)

Cidade de Praia, 21 Mar (Inforpress) – A participação feminina na esfera política em Cabo Verde tem aumentado consideravelmente, bem como as lutas pelo empoderamento e pela igualdade de oportunidades, mas a sua representatividade no cenário político está ainda aquém do desejado.

A constatação é partilhada por Hermínia Curado (PAICV), Dora Pires (UCID) e Filomena Delgado (MpD), que testemunharam à Inforpress as suas passagens na vida política cabo-verdiana, que incluem violências e exclusão.

Dos anos 1980 até a presente data, Cabo Verde vem registando uma baixa representatividade feminina quer no Parlamento quer no Governo.

Hermínia Curado, membro do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), começou na política ainda professora do Liceu Domingos Ramos, quando o partido a convidou.

“Na década de 80 inscrevi-me como membro do PAICV, comecei na base e fui subindo, até chegar à Comissão Política Nacional, em 2001, época em que fui convidada a fazer parte da lista dos deputados do partido, pelo que considerei que seria uma forma interessante de conjugar o meu percurso profissional com a política”, explicou.

Estava assim, observou, perante uma oportunidade única de cumprir com o que considerava ser um importante papel no quadro da promoção da mulher e da cidadania.

Segundo conta Hermínia Curado, ao alinhar a sua vida de mulher profissional, esposa e mãe com a política, espaço onde realizou um percurso notório em várias áreas, teve uma conversa franca com o esposo e filhos para lhes comunicar a decisão, já que se tratava de um meio onde, como mulher, poderia ser alvo de algum tipo de violência.

Feito isso, relatou, liderou, como deputada, uma luta voltada para as mulheres, sendo que a criação da Rede das Mulheres Parlamentares, da qual foi presidente, foi a sua primeira acção.

Com o apoio de Filomena Delgada, do Movimento para a Democracia (MpD), Hermínia Curado iniciou uma luta para a aprovação da Lei de Violência com Base no Género (VBG).

“Tivemos muitos opositores, ninguém queria entender, mas nós, as poucas mulheres que havia no Parlamento, trabalhámos e batalhámos até que os homens dos nossos partidos votaram a favor da lei”, disse, sublinhando que, na altura, a lei foi apelidada de “Mimi”, nome pelo qual é conhecida entre amigos e familiares.

Hermínia Curado admite que a mulher está hoje perante um novo cenário. Reconhece que há violência na política, mas realça que é preciso saber contornar as coisas, saber dialogar com todos e mostrar os caminhos convencendo as pessoas de que a política é nobre.

Para Dora Pires, da União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), as mulheres são tomadas como excepção na política, pelo que admite, às vezes, pedir a palavra para dizer que não é uma “excepção, mas sim normalidade”.

“Nasci e cresci no meio de homens e todos nós somos chamados para exercer o mesmo papel na sociedade. Somos iguais e temos as mesmas oportunidades de participar em qualquer circunstância a que somos chamados para dar a nossa contribuição”, ressalva.

Enquanto acreditar que é capaz, a deputada da UCID sente-se confiante em avançar e fazer o melhor para Cabo Verde, lição que aprendeu em casa, vendo os pais trabalhando lado a lado, e na vida, tendo começado a sua liderança na Igreja do Nazareno, onde desempenhou vários papéis.

Na política, iniciou-se nas eleições presidenciais em 2011, como mandatária do candidato Aristides Lima.

A partir daí, diz ter sido convidada pela UCID a fazer parte da lista do partido para a Câmara Municipal de São Vicente, como independente, tendo decidido, depois das eleições, passar a militante do partido.

Também docente de profissão, Dora Pires foi convidada, a meio percurso de mandato na câmara municipal, a liderar a Universidade de Cabo Verde, onde desempenhou o cargo de vice-reitoria, depois de assumir a liderança no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).

“Este é o meu segundo mandato como vice-presidente da UCID, mas o primeiro como deputada nacional. Consegui tudo isso com determinação, muita confiança e ousadia. O meu mundo é povoado de mulheres, que me ensinaram o quanto é importante ser humilde, dedicada e fazer o melhor”, referiu.

Também Dora Pires confirma a existência de violência de género, verbal e psicológica, na política, mas garantiu que não será por aqueles que procuraram impedir a sua caminhada que irá desistir.

Dizendo acredita no poder das mulheres, espera que todas possam contribuir para “transformar o país”, pois a Lei da Paridade abre caminho a uma verdadeira inclusão das mulheres na política.

Filomena Delgada, filiada no Movimento para a Democracia (MpD), nasceu na cidade da Praia e teve muita influência das mulheres da sua família para seguir o caminho da política.

Licenciada em Geografia, viveu um período político durante a época colonial e diz que quase todos os alunos das primeiras turmas que lecionou, no Liceu da Praia, seguiram a vida política.

“Com a abertura política, nas eleições de 1991, fui convidada pelo ministro da Educação da época para exercer o cargo de inspectora-geral do Ensino e isso terá contribuído para que o meu percurso fosse diferente, pois tive a oportunidade de exercer vários cargos no ministério”, realçou.

No MpD, iniciou-se em 1995, não era militante, mas foi convidada a integrar a lista do partido para as legislativas, o que aceitou, tendo chegado ao Parlamento, onde está actualmente.

Em 2000, entrou para a militância do MpD, sendo que, com a derrota nas eleições de 2001, foi escolhida pela Direcção Nacional para exercer o cargo de presidente e preparar o partido para as eleições internas.

Filomena Delegada – que no MpD já exerceu o cargo de vice-presidente e de secretária-geral do partido – diz que nunca sofreu violência, mas admite ter tido algum medo.

Como política e parlamentar, a sua experiência foi ter contribuído para a aprovação de leis que garantissem uma maior igualdade, liberdade e justiça às mulheres.

Nos últimos anos, Cabo Verde experimentou progressos no debate público em torno das questões ligadas às mulheres e alguns avanços no que tange à representatividade feminina na política, apesar da discriminação na ocupação dos cargos de poder.

As eleições legislativas de 2016 indicam que a participação das mulheres nos processos eleitorais em Cabo Verde é “fraca”, tendo sido eleitas 17, apenas mais duas do que em 2011, o que representa uma taxa de 23.6%, quando a meta mundial é de 30%, num momento em que se trabalha para um planeta 50/50.

Nas eleições autárquicas, a taxa é de 22% em 2012, 26.3% em 2016, sendo a proporção de deputadas nas assembleias municipais de 29,4%, 21% vereadoras nas câmaras municipais e 13.6% nas assembleias municipais.

Cabo Verde, com o anterior governo do PAICV, conseguiu ter uma representatividade de 50% de mulheres no elenco governamental, mas nesta IX Legislatura, com início em 2016, este número sofreu quebra, passando para os 25%.

No entanto, para melhorar a participação das mulheres na política, foi lançada a Agenda 50-50, um projecto que entende que as políticas públicas são primordiais para o exercício da igualdade de gênero e empoderamento das mulheres, e considera que homens e mulheres devem participar e contribuir para a elaboração das políticas, construindo um país melhor e com mais representatividade para todos.

PC/CP

Inforpress/Fim

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