Especialistas alertam para riscos do descrédito democrático e defendem vigilância permanente para evitar perda da República

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Especialistas alertam para riscos do descrédito democrático e defendem vigilância permanente para evitar perda da República
09/06/26 - 02:28 pm

Cidade da Praia, 09 Jun (Inforpress) – Especialistas alertaram hoje para o incumprimento de promessas políticas, a frustração social e o descrédito nas instituições democráticas, que podem abrir caminho ao extremismo e colocar em risco os alicerces da República e do Estado de direito democrático.

O alerta foi deixado pelo antropólogo Brito Semedo e pelo professor da Universidade Nova de Lisboa, Rui Tavares, pouco antes da apresentação do painel ‘Como se perde uma República’, integrado na programação paralela do VII Encontro Cabo-verdiano de Língua Portuguesa, que decorre no Campus do Palmarejo Grande, na Praia. 

No painel “Como se perde uma República”, ministrado pelos dois conferencistas , ambos propõem um olhar comparativo entre Portugal e Cabo Verde, analisando os factores que conduziram ao enfraquecimento da Primeira República Portuguesa e as lições que essa experiência histórica pode oferecer aos desafios democráticos da actualidade.

Na sua intervenção, Brito Semedo propôs uma reflexão sobre os impactos da implantação da República em Cabo Verde e as expectativas que o novo regime gerou junto da população cabo-verdiana, marcada, na época, por situações de fome, abandono e exclusão.

Segundo o antropólogo, a proclamação da República despertou a esperança de profundas transformações sociais e políticas, mas a rápida desilusão de muitos dos seus apoiantes demonstra como o incumprimento de promessas pode fragilizar um regime democrático.

“Vamos reflectir sobre o que fez a República perder-se para termos os cuidados ainda hoje. Uma série de promessas não cumpridas pode levar ao descrédito na democracia”, advertiu.

Brito Semedo salientou ainda que a análise histórica não deve limitar-se à descrição dos factos, mas servir para compreender os desafios actuais e prevenir erros semelhantes no futuro.

Por sua vez, Rui Tavares vincou o forte paralelismo de Cabo Verde à história da Primeira República Portuguesa, que perdurou por longos anos, lembrando a participação de cabo-verdianos em cargos governativos e em movimentos políticos da época.

O historiador considerou que a queda da Primeira República Portuguesa constitui uma “importante” lição para todas as democracias contemporâneas, defendendo a necessidade de fortalecer permanentemente as instituições democráticas, a liberdade de expressão, os parlamentos e a participação cívica.

“A Primeira República não cuidou dos seus próprios alicerces, acabou por se perder e deu lugar à mais longa ditadura da Europa Ocidental. É uma lição sobre a necessidade de cuidarmos das nossas democracias antes que os autoritários se aproveitem das suas fragilidades”, afirmou.

Questionado sobre os riscos actuais enfrentados pelas democracias, Rui Tavares exortou que nenhuma República está imune ao crescimento de fenómenos extremistas, populistas ou autoritários.

Segundo explicou, embora os contextos históricos sejam diferentes, persistem factores comuns que favorecem o enfraquecimento dos regimes democráticos, como a desconfiança nas instituições, as divisões políticas excessivas e a incapacidade de responder às expectativas dos cidadãos.

“A história está sempre em possibilidade de se repetir. Quando achamos que somos imunes a tudo, é precisamente aí que abrimos espaço para que os fenómenos autoritários possam surgir”, sustentou.

O docente defendeu ainda que o conhecimento da história constitui uma das principais ferramentas para reforçar a resistência das sociedades democráticas face aos discursos extremistas e às tentações autoritárias.

KA/ZS

Inforpress/Fim

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