Boa Vista: João Pereira Silva “não se considera herói” apesar de “ter posto a sua vida em risco” na luta de libertação

Sal Rei, 20 Jan (Inforpress) – O ex-combatente para a independência de Cabo Verde João Pereira Silva diz que “não se considera herói”, apesar de “ter posto a sua vida em risco”, ao participar na luta de libertação de Guiné-Bissau e Cabo Verde.

O ex-combatente fez estas declarações em entrevista à Inforpress a propósito do 20 de Janeiro, Dia dos Heróis Nacionais, data que há que há 39 anos recorda o dia da morte de Amílcar Cabral, considerado um dos mais carismáticos líderes africanos das lutas pela emancipação dos seus povos.

Apesar de ter participado na luta armada como combatente, e de colocar a sua vida em risco nas fronteiras africanas de Guiné e arredores, João Pereira disse que “só isso não se justifica ter o título de herói”.

“Não sou herói porque para o é preciso ter feito algo de excecional para o progresso da nossa comunidade, ou da sociedade, e ainda ter sido reconhecido e declarado como tal”, disse Joao Pereira Silva que defende que somente participar na luta de libertação nacional não lhe dá o título.

Ainda para o mesmo, para se ter este título é preciso o homem ter sacrificado a vida, feito acções em vidas que ultrapassam os tempos deixando algo de importante para a sociedade e para o país.

E, dos que considera os grandes homens e heróis nacionais destaca, Amílcar Cabral e o primeiro Presidente da República de Cabo Verde, Aristides Pereira.

E assim sendo, sobre a data de 20 de Janeiro, assegura ser de “extrema importância” comemorar vida e obras destes e outras pessoas que fizeram grandes ações e deixaram um legado “importantíssimo e decisivo”, para a comunidade nacional.

“Portanto eu não estou nestas categorias embora tenha ido a luta e participado em combates armados”, clareou.

Entretanto, este boa-vistense disse sentir que cumpriu a sua missão, considerando-se ainda um patriota e dos protagonistas da luta interna e abertura política decida pelo Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) na consagração da libertação nacional.

Mas, garantiu que se fosse necessário voltava a colocar a sua em risco para a independência das ilhas.

“Se fosse necessário chamar-me outra vez activo responderia presente”, afirmou, admitindo ser esta sua obrigação das forças armadas mesmo que reformado.

Dos momentos mais lhe marcou no seu percurso de combatente de liberdade, foi o assassinato de Amílcar Cabral e a proclamação de independência de Cabo Verde.

No primeiro, encontrava-se na antiga União Soviética, em 1972, onde completou outro ano num centro de instrução militar.

“Foi um choque que fez todos ficar apreensivos, mas estando na luta o espírito a ideia era, sem nenhuma outra hipótese, continuar na luta”, relembrou João Pereira, que ainda prossegue a passagem aos mais novos a filosofia de continuar sob a visão “além de Amílcar Cabral”.

Já no segundo momento, estava na capital, mais preciso no Estádio da Várzea, a dirigir as pessoas encarregadas de manter a segurança, pois tinha sob responsabilidade a direcção de Segurança e Ordem Pública, cargo que desempenhou de 1975 a Janeiro de 1977.

Por isso, informou ser esta uma das razões de não aparece em nenhuma das fotografias nas comemorações de independência, e muito poucas durante a época que esteve em luta na Guiné-Bissau.

Em tons de riso, explicou que além da sua timidez, preferia e tinha o cuidado de não sair nas fotografias, porque tinha que salvaguardar a sua imagem, se caso precisasse voltar para luta clandestina na Guiné-Bissau.

“Fui para Guine Conacri mas tive sempre ideia de regressar a Cabo Verde. Portanto, se tivesse que lutar em Cabo Verde na clandestinidade quanto menos tivesse sido falado de mim melhor”, disse.

Entretanto, antes de ir a Guiné lutou clandestinamente em Portugal, como militante do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), onde licenciou-se em engenharia Agrónomo, em 1970, embora “não exerceu a profissão”.

“Quando terminei o curso, sendo que teria que ir prestar serviço no exercito colonial, o PAIGC deu-me instruções para sair da militância do partido”, avançou prosseguindo que rumou a Guiné Conacri via França, onde esteve um ano na escola politica militar.

A seguir, em 1971/72, completou outro ano num centro de instrução militar na antiga União Soviética. Regressou a Guiné em Março de 73, e entretanto em Abril de 74 teve Golpe de Estado e Revolução dos Cravos em Portugal.

Logo a seguir, depois desta estada regressou a Cabo Verde, em Maio de 1974, para desenvolver a luta política em Cabo Verde e eventualmente a luta armada se fosse preciso.

Desta altura recorda que juntamente com outros camaradas protagonizou o primeiro desembarque de armas clandestinamente num navio que veio de Guiné para Cabo Verde, se eventualmente tivesse necessidade de defender e lutar de armas em mãos para libertação de Cabo Verde.

“Felizmente, não foi necessário chegar naquele ponto, e foi possível por via de negociações advir a uma solução para a independência de Cabo Verde”, alegou o ex-combatente, que considera que o PAIGC e PAICV fizeram uma luta exemplar e conseguiram uma independência autêntica do poder colonial.

Após a independência, no contexto de partido único, desempenhado as funções de ministro de Desenvolvimento Rural e Pescas (1977 até 1991), e durante os últimos seis meses da primeira República foi ministro de Administração Interna, em acumulação. Foi ainda  o primeiro a dirigir as primeiras eleições multipartidárias em Cabo Verde.

Depois disso dedicou-se a várias actividades estando no sector privado, tenho sido empregado em empresas privadas e consultor. Foi outra vez chamado pelo Governo do PAICV, de 2004 a 2004. Foi empregado de empresas privadas, consultor e presidente de conselho de administração e da comissão executiva da TACV.

Actualmente está retirado de todas as actividades políticas e não desempenha nenhuma actividade profissional.

João Pereira Silva nasceu na ilha da Boa Vista, a 06 de Abril de 1945, em Fundos das Figueiras, onde vive actualmente gozando da sua reforma.

VD/CP
Inforpress/Fim

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